As manias dos (a)celerados

A vida é feita de pequenas fases que, todas somadas, constituem a nossa história. Assim, estas fases têm um significado intenso e inelutável quando estão em modo «activo» e tornam-se boas, ou más, recordações quando passam à história. Neste momento a fase é a do físico. Tendo descoberto um desporto que me consegue entusiasmar, que dá para praticar sozinho ou em grupo, que pode proporcionar emoções intensas, que tem uma curva de aprendizagem relativamente rápida e que se adapta bem à zona onde vivo (Azeitão) há que aproveitar! O desporto é o BTT (Bicicleta Todo-o-Terreno).
Aparentemente é extremamente simples (e é), mas na realidade exige mais de nós do que pareceria à primeira vista e não estou a falar de músculos e quejandos. O facto é que primeiro temos de familiarizar-nos com a bicicleta, toda a sua técnica, acreditar que o aparentemente complicado sistema de mudanças funciona e nos levará a subir uma parede com aparente facilidade (enfim, nada é fácil...) e, sobretudo, não pensar em desistir. Perseverança e força de vontade é o que se pede no início. Não esquecer uma boa pitadinha de loucura para «temperar» a história e avançar para os trilhos com sede de os domar.
Primeiro papei muita estrada. Fiz 89 km com uma bicicleta que comprei como sendo mista mas que era muito mais de estrada que outra coisa qualquer. Depois tive a minha primeira saída para a serra. Em grupo, como convém a estas coisas. Era eu, o João Nuno, o Paulo Afonso e um amigo dele, o Aníbal. Tudo correu pelo melhor até chegarmos à primeira subida. Quando olhei para o pesadelo que se levantava serra acima pensei para comigo que aqueles tipos eram todos doidos. Mas eles não ficaram muito impressionados com a subida e atacaram-na com alma e energia. Está bem está... cheguei a um décimo da subida e saltei para fora da bicicleta fazendo a subida toda a pé. Escusado será dizer que o resto do pessoal trepou a subida num relativo ápice. Enfim... haveria de subi-la outro dia. No cimo desta terrível subida, havia uma ainda pior que até hoje ainda não consegui fazer. Mas hei-de fazê-la. Tenho a certeza. O resto da saída foi calma e normal, agradável mesmo.
Esta saída deu para me convencer de que a bicicleta mista era pouco mista e muito de estrada. Voltei à Decathlon, vendi a história de que o vendedor me tinha garantido que a bicicleta fazia terreno com uma roda às costas, veio o chefe de loja e, uma vez convencido de que eu era um cliente importante para o sucesso da loja em Portugal (pois sim...), lá troquei a bicicleta por uma verdadeira de montanha: uma roda 26''.
Na saída seguinte voltei ao mesmo percurso com ganas de o fazer todo em cima da bicicleta nova. Ainda com a imagem do João Nuno a voar pelo estradão de terra fora, deixei-me invadir por aquela aparente facilidade dos bons e ganhei velocidade a mais para a sabedoria acumulada. Resultado: perante uma vala transversal cheia de água hesitei e a cerca de 40 km/h acertei em cheio na vala. Claro que a roda ficou presa na vala e eu mandei um voo tal que dei uma cambalhota por cima da bicicleta, caí de costas no chão, saltaram-me os óculos e fiquei um bocado amolgado. Mas estava inteiro, o que já não era mau de todo. O problema é que não conseguia mudar as mudanças da roda pedaleira da frente o que me limitava muito o resto da volta que ainda estava no início. Bela estreia para a bicicleta! Lá apareceu um companheiro de caminho que se dispôs a ajudar-me e consegui colocar as duas rodas pedaleiras mais pequenas da frente em funcionamento. Voltei para trás para reparar as mazelas e a bicicleta. Conclusão, a segunda saída correu mal.
Passei a semana toda a avaliar o que teria corrido mal na saída do estampanço. Claro que foi excesso de confiança, excesso de velocidade e demasiada pouca experiência. Convencido que melhores dias viriam, continuei a empenhar-me no desporto e, hoje em dia, posso dizer que já faço praticamente todas as subidas em cima da bicicleta, estou mais à vontade, já li um livro sobre o assunto e vou acumulando quilómetros em cima da bicicleta. Estou a ampliar o percurso das saídas passando de 11, para 14 e agora para 17 km, sempre em serra pura e dura.
Este fim-de-semana vamos para Castelo Novo e vamos levar as bicicletas para pedalar na Gardunha à grande. Sei que bons trilhos nos esperam.

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