16/07/2003

Nos braços da Gardunha




Lá fomos para Castelo Novo. É sempre bom regressar. A serra continua muito despida, fruto dos inúmeros incêndios dos últimos anos. Ainda éramos um grupo grande: os Bento, os Fonseca, os Guimarães, os Marinho, num total de 14 criaturas mais o Egas, o cão. É claro que um fim-de-semana é sempre muito curto, mas foi o que podia ser. Infelizmente, quando é para estar com amigos, o tempo nunca chega.

O João e eu levámos as bicicletas e ainda tivemos duas saídas muito agradáveis. Saíamos cedo, às 8:00 da manhã para que fosse possível regressar a horas decentes para sairmos de manhã para umas passeatas. A proximidade da serra obrigava-nos a começar a trepar quase de imediato, sem aquecimento, o que tornava o início um pouco penoso. Até chegarmos às Águas do Alardo era trepar a frio. Saímos com um neblina que permitia uma visibilidade de cerca de 50 metros. Lá trepámos sempre em estradão de terra até à Casa da Floresta (que eu sempre conheci como a Casa do Guarda). Quando chegámos acima dos 800 metros de altitude fomos presenteados por um daqueles espectáculos da Natureza. A Cova da Beira estava coberta por um manto de nuvens branco que reflectia a luz do sol. Lindo. Apesar de seguirmos a carta militar para nos orientarmos, conseguimos perder-nos. Parece que a carta sendo de 1997 não reflecte o abatimento de uma porção do caminho, tornando-o intransitável, mesmo para bicicletas de montanha. Lá fizemos a descida até chegarmos junto à represa da Ribeira de Alpreade acabando por atingir o povo após 12,8 Km de saída e pouco mais de uma hora e meia.

O resto do dia começou fraquinho. Fomos até Monfortinho para um almoço que só não foi uma desgraça porque a companhia valia tudo, passámos por Penha Garcia, sofrendo os sempiternos apertos para deslizar com os carros por entre o casario e acabámos por ir experimentar a piscina de Castelo Novo. O fim do dia foi agradável com uns mergulhos na água quente da piscina. Jantámos no Cerejal em Alpedrinha, que confirmou o estatuto de melhor restaurante das redondezas. A noite acabou com as senhoras a conversarem na sala e os senhores no jardim (sem sexismos primários). Claro que o Vasco lá foi defendendo a sua dama: o eterno FC Porto. Faz parte...

Às 5:00 da manhã, o Zé veio acordar-me. Parece que alguém gritava furiosamente na rua que havia um incêndio nas Devesas. Meio a dormir, olhei para fora da janela e, de facto, estava uma fumarada dos diabos. Ainda ensonado levantei-me, vesti-me e lá desci para ir ter com o Zé. A Sofia, que tem o sono leve, tinha acordado com a chinfrineira e a Mi acabou por acordar também. Quando saímos para a rua, o fumo lá estava mas faltava uma componente habitual dos incêndios florestais: o intenso cheiro a fumo. Afinal era apenas um nevoeiro denso. Mas o facto é que alguém gritava furiosamente que tinha o gado nas Devesas, que estava tudo a arder, que era uma grande desgraça e que estava tudo perdido. Lá nos encontrámos com um vizinho da minha avó e outro senhor que nos disseram para subirmos para o carro que íamos lá acima ver o que se passava. Saltámos para dentro de um Suzuki WagonR, que é um carrito utilitário de cidade mas que fez bravamente as vezes de jipe, e trepámos até ao Alardo e depois para as Devesas. Uma vez lá chegados, confirmámos que não havia incêndio nenhum. Tentámos contactar os bombeiros que já vinham a caminho. No entanto, depois de dado um alerta, eles têm de ir confirmar que está tudo em ordem. Passados poucos minutos lá apareceram primeiro com uma viatura mais pequena de intervenção rápida e depois com um auto-tanque de maiores dimensões. Tinha passado o perigo e voltámos para baixo. Tudo está bem, quando acaba bem. Voltámos para a cama, já que às 8:00 o João e eu íamos sair para a serra novamente.

A segunda saída correu bem, apesar de não conseguirmos o nosso objectivo que era chegar ao cume da serra. Não o conseguimos por falta de tempo. Se demorássemos muito mais tempo levávamos na cabeça do resto do pessoal e resolvemos regressar pelo mesmo caminho que tínhamos feito para subir. De facto, a Gardunha tem óptimas condições para soltar umas pedaladas encosta fora. É uma experiência a repetir quando for possível.

Como o domingo já era o dia do regresso, almoçámos light (umas sandes e fruta que tínhamos comprado à beira da estrada logo à saída de Alpedrinha e que era reconhecidamente boa). Limpámos a casa como comportamento tacitamente assente por quem leva para lá visitas. Devo confessar que me custou ter o pessoal todo a limpar a casa, mas deixá-la suja seria uma desgraça familiar de proporções bíblicas, para além de deselegante. É claro que o resto da malta não o devia ter feito. O facto é que entre todos, limpámos a casa.

A viagem de regresso decorreu sem problemas apesar do trânsito intenso e quase compacto que se fazia sentir. Claro que lá tivemos de levar com todos aqueles atrasados mentais que conduzem como mentecaptos eufóricos e que nos querem ultrapassar porque nós vamos, bem como os vinte carros que seguem à nossa frente, a 90 km/h e eles querem ir a 120 km/h que é o máximo que a pandeireta que conduzem consegue dar. O resultado são inúmeras ultrapassagens pela direita, as bestialidades do costume e a falta de bom senso que vigora nas estradas portuguesas.