21/09/2004

A contra-demagogia



O ministro Bagão Félix resolveu acabar com os benefícios fiscais das Contas Poupança Qualquer Coisa (CPQC). Ouviu-se de imediato um coro de protestos pelo ataque que ele estava a fazer a essa entidade difusa e convenientemente amorfa que é a Classe Média. Francamente é uma problemática que não me preocupa por aí além. Nem me choca de todo.

Infelizmente, o ministro teve uma tirada algo infeliz e profundamente demagógica ao afirmar que, qual Robin dos Bosques Lusitano, estava a tirar aos ricos para dar aos pobres. Afirmou que tinha estudos que indicavam que quem usufruía maioritariamente dos benefícios fiscais inerentes a estas contas, era o terço superior dos contribuintes, ou seja os mais ricos. Eis um exemplo acabado de infeliz demagogia e populismo inesperado. A demagogia tem sobre os políticos um efeito semelhante ao de um abismo quando olhamos para baixo: puxa-nos de uma forma quase irresistível!

Demagogia tem a seguinte definição no dicionário da Texto Editora: "governo ou actuação política pautada pelo interesse imediato de agradar às massas populares, com o fim de alcançar o poder ou de o manter". Temos ainda o compagnon de route predilecto da demagogia que é o Populismo: "política que se orienta pela obtenção do favor popular, através de medidas que agradem sobretudo às classes com menor poder económico".

Ora, no passado fim-de-semana, surge no semanário Expresso um artigo de opinião de Nicolau Santos que faz a chamada contra-demagogia. Diz o senhor no seu artigo intitulado "No meu bairro está tudo rico", entre outras pérolas, que o merceeiro e padeiro deste seu bairro, entre outras nobres profissões do povo, vêem agora as suas CPQC estão em risco.

Afirma ele que "A sra. Ana, ajudante na farmácia, resolveu começar a colocar uns trocos numa Conta Poupança Habitação, visando a compra de uma casinha quando chegar aos 30, ela que têm agora 24. Desde quinta que não aparece no emprego e mandou dizer que não consta que os ricos trabalhem. Acha estranho que a conta bancária continue próxima do zero no final do mês". Quantos portugueses andam com as contas próximas do zero mantendo obstinadamente a CPQC? Podemos não ter dinheiro para o dia a dia, mas mexer na CPQC é nunca!

Volta o amigo Nicolau à carga: O sr. João da padaria convenceu-se, há três anos, que era bom fazer um PPR-E, porque o filho ia bem no liceu e depois quereria certamente não só concluir um curso universitário, como também tirar talvez um MBA. Nessa altura, o PPR-E daria jeito. Sim, porque isto de viver numa país onde se tem de pagar uma fortuna em propinas universitárias, em tudo semelhante aos EUA, dificulta o acesso à universidade e o melhor é ter uma CPQC para o que der e vier.

Seria interessante que o sr. Nicolau Santos nos explicasse em que dados concretos se baseou para afirmar que os merceeiros, padeiros, ajudantes de farmácia e agentes imobiliários constituem uma amostra representativa dos detentores de CPQC.

Este artigo do sr. Nicolau não é mais do que pura contra-demagogia. É profundamente populista e feito para nos deixar a acenar com a cabeça numa apática e mecanizada concordância com o sr. Nicolau. É o tipo de artigo popular nos barbeiros (os que têm CPQC e o Expresso disponível para os clientes lerem em vez do Correio da Manhã e a Bola... os barbeiros do bairro do sr. Nicolau), das paragens de autocarro (sim, existem paragens de autocarro neste país onde as pessoas estão a ler o Expresso e não o 24 Horas ou O Crime, naturalmente que estão todas no bairro do sr. Nicolau) e dos bancos dos jardins públicos onde reformados exaltados discutem este artigo (nos jardins municipais do bairro do sr. Nicolau lê-se o Expresso e não A Capital ou o Tal & Qual).

Já agora, gostaria de saber que bairro tão habilmente fantasista é esse em que mora o sr. Nicolau Santos... provavelmente mora na Rua Sésamo! Consta que o Popas e o Monstro das Bolachas estão preocupados porque as suas CPQC vão ser afectadas por esta decisão do Governo!