17/07/2003

O velório




Estava morto e, como todos os mortos, não se mexia. Não respirava. Não fazia nenhum ruído. E no entanto estava bem vestido. Tinha a barba feita. Estava penteado. Estava bonito. Foi então que ao olhar para ele me lembrei. Lembrei-me da forma como contava o nosso casamento à família e aos amigos. Como falava das mesuras e cuidados que tinha para comigo. Das surpresas que sempre me tentava fazer. Da forma como nos tínhamos conhecido. Do modo galante como me tinha feito a corte. Da reacção que o meu pai tinha tido. De como tínhamos casado num dia de Primavera em que apenas tinha chovido um pouco de manhã à hora a que tinha saído para ir ao cabeleireiro e estava aquele cheiro a terra molhada no ar. De como tinha deixado de se dar com os amigos para me dedicar mais tempo. De como ajudávamos na missa a recolher esmolas. De como me senti quando fizemos amor pela primeira vez, já depois de casados, plenos de seriedade. De quando nasceu a nossa primeira filha, Joana. De quando nasceu a nossa segunda filha, Mariana. De quando comprámos a primeira casa, depois de vivermos numas águas furtadas alugadas durante dois anos onde chovia sempre no Inverno. Lembrei-me da minha licenciatura, da minha pós-graduação. Do nosso terceiro filho, Gustavo. Do divórcio dos meus pais. Lembrei-me das férias na praia, junto à Ericeira. Do vento constante e dos miúdos a fazer Windsurf nas ondas. Do pregão das "bóliiiiiiiiiinhas" de Berlim e dos vendedores de gelados. Das barracas azuis e brancas onde ninguém teria vergonha de viver porque o banheiro era bonito e custavam apenas 57 escudos por dia. Lembrei-me das doenças dos miúdos, do sarampo, da papeira, da rubéola. Da tua progressão na empresa, a pulso, de cargo em cargo. Da minha carreira suave, lenta e calma porque havia os miúdos. Da paciência da tua mãe para com os miúdos. Do nosso primeiro carro, uma Renault 4L com as mudanças no tablier. Lembrei-me da emoção do nosso primeiro bilhete de identidade com o estado civil CASADO. Das difíceis negociações para decidir que filme íamos ver ao cinema, sempre a querer ver filmes diferentes, mas com vontade de apenas ir ao cinema, fosse qual fosse o filme. Lembrei-me do tremor de terra de 1969, do nosso pânico julgando que o mundo ia acabar. Recordei a nossa cadela Laika que morreu atropelada debaixo de um autocarro. Das idas ao supermercado que tu tanto detestavas. Do anel que me deste quando fizemos dez anos de casados. Da ajuda preciosa que me deste aquando da doença da minha mãe. Da sensação de impotência que partilhámos quando o primo Joaquim, o Quim, ficou viciado em heroína, ou em cavalo, ou em chinesa ou lá em que raio era. Da alegria tremenda sentida quando o Porto foi campeão da Europa em 1987, tu que nem gostavas de futebol. Das declarações do Imposto Complementar primeiro e do IRS depois, feitas a dois com cuidados e certezas pueris. Da tua aversão a telenovelas brasileiras e a estranha vontade de ver, com uma fidelidade canina, o Telejornal.

Inesperadamente, a prima Natália despertou-me para a realidade, falou comigo, puxou-me para fora da neblina das memórias com umas condolências de ocasião e outras intimidades afins. Apresentava um choro contido.

E foi então que me lembrei da primeira bofetada. Da primeira tareia. De quando me partiste um osso qualquer da cara, o malar ou lá que raio era, e a cana do nariz. Tu que não bebias nem te drogavas. De quando a Joana ficou estranha sem querer estar perto de ti. De quando a Mariana saiu de casa no dia em que fez 18 anos para nunca mais voltar. De quando me violaste na casa de banho com o Gustavo a chorar no berço por causa dos dentes.

Olhei para ti e sorri. Sorri porque não havia dúvida que estavas bem vestido, mesmo elegante, para o pulha que foste.