A terapia da fala do senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos"

Esta é uma história sobre um senhor que fala muito.
Aliás, a definição de falar demasiado que, actualmente, cada um de nós possa ter tornar-se-á difusa e longínqua após termos conhecido o senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos".
Curiosamente, a mulher dele fala muito pouco. Deve ser aquilo a que chamam os "misteriosos desígnios do Senhor". Coitada... dela e de nós.
O mais incrível é que um dos seus filhos (e a prole já é muita...) parece ter um qualquer atraso na fala. Pudera! Imagino que sempre que a criança se prepara para abrir a boca surja o pai a falar por ela. Sim, até com uma criança ele fala demais. Por causa deste problema do rebentinho do senhor, resolveram recorrer à ajuda especializada de um terapeuta da fala.
- Boa tarde. Vieram até cá porque pensam que o vosso filho tem um atraso na fala, correcto?
A senhora fica calada e começa o senhor a desbobinar...
- Exacto. Foi por eu achar que o miúdo fala pouco que contactei um amigo meu, o Manuel, que também tem um filho com uma ligeira paralisia cerebral que lhe afecta a região da fala do cérebro e ele contou-me a história de um amigo dele que corria em automóveis no Paris-Dakar, que eu já estive para fazer uma vez mas à última da hora o meu avô faleceu e eu não fui porque tive de ajudar a pagar o enterro, mas então a ligeira paralisia cerebral desse miúdo fez-me ter pena dos meus filhos porque também podiam ficar assim e o meu pai sempre disse "não tomes café porque te pode acelerar o cérebro", aliás a última vez que estive num médico foi porque me doía uma unha que tinha encravada e é por isso que eu nunca mais cortei as "garras", como carinhosamente lhes chamam os meus amigos do Benfica, e também porque a minha mulher, a "Marmela" como lhe chamo carinhosamente, também gosta...
A esta altura, o terapeuta da fala pensava "uma ligeira paralisia cerebral?!?!?!" e dizia, cuidadosamente, "hum-hum"...
Após uma pequena pausa de não mais de 2 segundos, o senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos" voltou à carga.
- A realidade é que achamos que o miúdo fala pouco e o pouco que fala não diz nada.
“Quem sai aos seus não é de Genebra” pensou o terapeuta da fala ironicamente
- O facto é que o miúdo fala pouco comigo, pelo menos sempre que estou com ele. Na realidade, o estar é um acto contido que deriva de uma vivência comum saudável que me esforço permanentemente por promover no seio da família. Para o efeito adquiri um cão que é o cão da família. Sendo de uma raça um pouco indefinida, é um boxer de alma e um rafeiro de espírito facto que muito me agrada já que sendo pobre não me sentiria bem se tivesse um desses cães maricas de rico que se têm de levar à rua, ter dentro de casa e tratar bem com uma regularidade preocupante como se fossem apenas mais um membro da família. É quase como se fosse um filho e para isso já tenho a Marmela para tratar deles. Foi um ilustre tio meu que disse que os cães são como as ervas daninhas, se temos de tratar delas é porque já temos o jardim lixado. Deve ser por isso que eu tenho um jardim de terra que é um luxo. Francamente, não consigo entender as pessoas que vivem em caixotes na cidade quando é no campo que se vive a vida a valer. Sinto que umas das possíveis causas para o meu filho ter dificuldades a falar reside no facto de ter vivido connosco perto de uma cidade e nota-se, marcadamente, toda a influência negativa da urbe. Li no outro dia numa revista um artigo sobre os cães e as crianças, mas achei que se ajustava pouco ao nosso cão da família pois havia intenso contacto físico entre ambos e nós, no fundo, somos pobres.
O terapeuta da fala olhou discretamente para o relógio… já tinham passado 15 minutos e o tipo ainda não se tinha calado. Ela mantinha a postura inicial com um olhar meio vazio que indiciava um apurado dispositivo de protecção contra estes raides oratórios do senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos".
Vendo a sua vida a andar para trás, resolveu intervir.
- Portanto, a criança tem dificuldade em expressar-se oralmente? E por escrito?
- Por escrito expressa-se bem, visto ainda não saber escrever. Aliás o meu avô que escreveu três livros, começou por ser analfabeto o que o levou a encarar a escrita na escola como um dever.
O terapeuta suspirou já no mais absoluto pânico…
- Se não tivesse sido a minha a avó a impor-se o meu pai não teria nascido sem o meu avô ter comprado uma parcela de terreno que em 1894 estava à venda por quinhentos escudos. A minha empresa que lida com questões de obras também lhe teria comprado o terreno por aquele valor já que seria muito bem comprado. No entanto a minha avó engravidou de um vizinho, o Chonas, e lá nasceu o meu pai, com o meu avô, em desespero, a perder o terreno. É por isso que o meu filho pensa muito no avô sempre que quer falar. Ainda recentemente um médico nosso amigo me disse que se ele não fosse ortopedista podia curar o miúdo. A Marmela não concordou porque ele frequentava muito o café onde eu costumo estar e o sujeito não lhe parecia de confiança. Não sei se o Sr. Dr. já se apercebeu da função social que os cafés têm? É absolutamente fantástico ter um café perto de casa e poder contar com ele sempre que é necessário. Sou muito amigo do dono do café perto de mim, chego a pagar rodadas ao pessoal e tudo. Mantenho conta corrente por lá para evitar andar com muito dinheiro no bolso, facto que não se ajusta ao meu estatuto de pobre.
O terapeuta, desesperado, olhou para a Marmela e interrompeu o senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos"
- Muito bem. Portanto o senhor pretende fazer uma avaliação do problema de fala do seu filho? Penso que para que a terapia seja verdadeiramente eficaz, toda a família terá de participar nessa avaliação. Julgo mesmo que a realização de terapias alternativas simultâneas seria a melhor solução.
- Como assim, terapias alternativas simultâneas?
disse a Marmela com uma capacidade de síntese aparentemente invulgar na família.
- Na minha opinião profissional, a terapia para a criança teria de ser uma normal terapia da fala. Já o senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos" teria de ser submetido a uma terapia educacional que consistiria em exercícios de projecção e controlo da fala para que a sua confiança inata seja devidamente absorvida pela criança.
O senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos" desconfiou daquele discurso.
- E de que tipo de terapia estamos a falar? Sabe que eu tenho uma amiga que é Bacharel em Terapia da Fala e CESE em Ensino e Administração pela Escola Superior de Saúde de Alcoitão, formada em 1985, professora do Curso de Terapia da Fala na Escola Superior de Saúde de Alcoitão e orientadora em várias acções de formação nesta área. Segundo ela, o Terapeuta da Fala é o profissional responsável pela prevenção, avaliação, tratamento e estudo da comunicação humana e perturbações relacionadas. Neste contexto a comunicação humana engloba todos os processos associados à compreensão e à produção da linguagem oral e escrita, assim como todas as formas apropriadas de comunicação não verbal…
Foi então que o terapeuta olhando novamente para o relógio, desta vez de uma forma verdadeiramente despudorada, e vendo que já se tinham passado mais de 40 minutos deste pequeno inferno verbal, disparou visivelmente irritado.
- A terapia no seu caso consistiria naquilo que presumo seja um verdadeira tortura para si: Teríamos de fazer coisas tão difíceis como tentar descrever verbalmente o nosso dia em MENOS de 3 minutos, estar presente num grupo de conversa durante pelo menos uma hora sem abrir a boca para interromper a conversa dos outros que não conhecemos de parte nenhuma, manter uma conversa com um máximo de 5 minutos sem realizar nenhum tipo de relações com terceiros estranhos à conversa, sejam eles familiares, amigos ou animais. Deixar a nossa mulher ter uma conversa com terceiros à nossa frente sem NUNCA a interrompermos para contar uma emocionante história nossa. Ter o cuidado extremo de não contar a mesma história de 42 minutos várias vezes num mês ao mesmo grupo de pessoas, entre outras terapias correccionais.
O senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos" reflectiu num desusado silêncio, estranhando o invulgar efeito de eco que os seus pensamentos faziam dentro da sua cabeça, e após aturada reflexão pegou no filho pela mão, facto que a criança muito estranhou, virou-se para a Marmela e disse
- Vamos embora Marmela, penso que este senhor não sabe o que diz. Só falta dizer que o meu cão ladra de noite porque fica lá fora sozinho e triste e com isso incomoda os meus vizinhos!
O terapeuta não percebeu esta alusão ao cão e aos vizinhos mas, por um breve instante, teve muita pena dos vizinhos do senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos". No entanto, registou com agrado que ele se levantava para ir embora. Furioso. Provavelmente, para nunca mais voltar.
Assim que a família do senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos" saiu, pegou no telefone e ligou para a ex-namorada com quem tinha acabado de forma desagradável apenas uma semana antes.
- Tou? Joana? Olha lá, não és tu que és Bacharel em Terapia da Fala e CESE em Ensino e Administração pela Escola Superior de Saúde de Alcoitão, formada em 1985, professora do Curso de Terapia da Fala na Escola Superior de Saúde de Alcoitão e orientadora em várias acções de formação nesta área? Sim? Bem me parecia. Que brincadeira foi esta de me mandares para aqui esta bestinha execrável do senhor "espécie de mosquito que se encontra em terrenos pantanosos"?!?!?! Vê lá se te acalmas?!?!?! Olha que a vingança tem limites!!!!! Caramba!!!
