29/03/2004

Os mais longos 21.097 metros da minha vida




21.097 é o número histórico do passado domingo, 28 de Março de 2004. Foram estes os metros que percorri sem parar nenhuma vez, sem andar, sempre em passo de corrida. Nunca pensei que o conseguisse fazer. Nunca me imaginei sequer a tentá-lo. Lá cheguei à praça da portagem por volta da 9:30, passei pelos cães polícia que cheiravam uma mochila (enquanto deixavam passar quatro) na procura de bombas dado que esta prova ainda estava ensombrada pelos acontecimentos de 11 de Março em Madrid. Esperei uma hora pela partida para a minha primeira prova de atletismo de sempre. Estava algum frio, mas à medida que se juntava mais gente o vento tinha cada vez mais dificuldades em penetrar naquela imensa massa humana a ponto de nos conseguir causar frio. Claro que o nervoso miudinho antes da partida também ajudava.

Encontrei o Pedro Marinho que ia fazer a prova mais uma vez (é homem para correr a distância num tempo abaixo das duas horas!) com alguns amigos dele e lá esperámos animadamente durante uma hora pelo início da prova. Lá à frente, a cerca de 200 metros de nós, estavam os profissionais e os convidados. Sim, é verdade, todos os outros percorrem mais 200 metros do que a distância estipulada! Enfim... Com cerca de 10 minutos de atraso lá deram a partida e largámos ponte fora na busca do melhor tempo, de acabar ou de apenas ver as vistas.

No início da prova, no meio de tanta gente, preocupei-me mais em não atropelar nem ser atropelado, em concentrar-me na passada, na respiração, no ritmo certo para não estoirar demasiado cedo. Dizem que a vista da ponte é magnífica... deve ser, mas confesso que não tive tempo nem alma para a apreciar. Afinal de contas ou bem que corremos ou bem que desfrutamos da vista. A primeira parte da corrida nem teve grande história. Lá fui correndo até ao primeiro posto de abastecimento de água em Alcântara, do outro lado da rua do Jumbo. Depois, segui em direcção ao Terreiro do Paço.

Em frente ao edifício do IADE na Rua D. Carlos I, começa a chover forte e cruzo-me em sentido inverso com os primeiros classificados que já tinham ido para lá de Santa Apolónia e voltado!!! Que passada incrível! Que máquinas infernais de corrida!!! Depois, segui pela 24 de Julho fora até chegarmos ao Terreiro do Paço. Virei para a Rua do Ouro, Rossio, Rua da Prata, Terreiro do Paço novamente onde passei ao km 10 com um tempo de cerca de 1:03. Entretanto deixou de chover. Por esta altura, os quenianos já tinham acabado a prova com o vencedor, Rogers Rop, a fazer 59:49!!! Eu ainda nem a meio ia...

Lá segui pela Av. Infante D. Henrique fora em direcção ao local de viragem para depois fazer todo este percurso em sentido inverso até Belém. A meta estava instalada na Praça do Império em frente aos Jerónimos. Confesso que os últimos três km foram extremamente penosos. Tive de fazer um enorme esforço de concentração para terminar. A cerca de 1 km da meta consegui mesmo tropeçar no apoio de uma baia que delimitava o percurso. Felizmente não caí, mas o imenso barulho produzido serviu para me acordar do leve torpor em que estava e levou um companheiro de corrida a perguntar-me se eu estava bem e a puxar-me mais para o meio do percurso incentivando-me a terminar porque, afinal, já estávamos quase a chegar à tão ansiada meta.


Vejam bem a minha figura..., um verdadeiro athletus parvus

Por fim, acabei a prova. O meu tempo foi 2:20:07 (um pouco acima do que tinha definido como objectivo, 2 horas a 2 horas e 15 minutos). Apesar de tudo, nada mau para primeira vez. Recebi uma medalha e, sobretudo, ganhei uma batalha contra mim mesmo. Já não posso dizer que não consigo correr mais de 2 minutos sem ficar de rastos e sem fôlego. Quem diria...

24/03/2004

Os dorsais ventrais




Hoje fui levantar os dorsais para a meia maratona. Sou o número 3505. Parece-me bem. Começo a sentir um formigueiro na barriga com o aproximar do dia da prova. Os dorsais levantavam-se no Museu da Electricidade, ali junto ao rio. Da entrada via-se perfeitamente a ponte. Hoje pareceu-me mais imponente do que o habitual. Altiva mesmo.
Lá longe, imaginei-me a correr no tabuleiro sem aquele habitual zumbido dos carros. É já no domingo...
Já agora, porquê chamar dorsal a um distintivo para usar no ventre? Incongruências do atletismo moderno herdadas de outros tempos.

14/03/2004

Descubra as diferenças




No dia 11 de Março, a Al Qaeda matou 201 pessoas e feriu mais de um milhar em Madrid. Demonstrando aquilo de que é feita (por homens e mulheres sem escrúpulos nem dignidade de luta), a Al Qaeda só conseguiu provar até à exaustão que não tem alvos definidos. Que os alvos somos todos nós.
Tristemente, os muçulmanos tentaram encaixar no seu mundo pré-medieval em 100 anos o que levou ao mundo ocidental 700 anos a construir, com previsíveis maus resultados. As assimetrias são enormes, o choque de culturas também e conseguiu criar-se duas classes sociais, os muçulmanos-muçulmanos e os muçulmanos-ocidentalizados, antagonistas históricos a partilhar uma mesma sociedade. Assim chegamos ao status quo actual. Os líderes políticos do mundo ocidental são os americanos e, graças à sua estupidez inata, conseguiram durante anos andar a alimentar essa corja de muçulmanos-ocidentalizados que se dedicava a explorar os seus próprios compatriotas, gerando grandes ódios e, sobretudo, grandes inimigos. É precisamente dessa cáfila de bandidos que emerge Bin Laden. Ele sabe que depois do 11 de Setembro os americanos estão com as garras de fora e que têm tão poucos escrúpulos como a sua própria organização. Conhecem-se demasiado bem de outras negociatas que fizeram juntos. Sendo difícil incomodar os americanos, então vamos castigar os seus acólitos para aprenderem a ser mais criteriosos com as escolhas que fazem.

É por estes tortuosos caminhos que chegamos aos comboios suburbanos de Madrid na manhã do dia 11 de Março de 2004. Pela estação de Atocha passam diariamente dezenas de milhar de pessoas. Nos últimos tempos, algumas dessas pessoas, ao abrigo do anonimato dos simples trabalhadores e estudantes madrilenos, tomavam notas, faziam esquemas, estudavam opções. Faziam planos de morte escondidos pela névoa do stress e da pressa de quem trabalha e, indiferentes ao buliço matinal de Atocha, acotovelaram-se com outros passageiros, deixaram mochilas fúnebres esquecidas nos vagões e fizeram uma chamada telefónica para o Inferno.

Infelizmente, a única coisa que eles andam a fazer é a matar cobardemente os que nada têm a ver com estas guerrinhas. Como não têm a coragem (nem a inteligência, veja-se como, felizmente, os atentados em Madrid tiveram enormes falhanços) necessária para matar quem provoca todos estes problemas (não consta que tentem fazer algo verdadeiramente relacionado com os seus problemas como, por exemplo, matar o Bush) andam a matar quem está mais desprotegido. É como se o Bush resolvesse de mote próprio, sem o acordo dos tradicionais aliados, invadir nações soberanas em nome da sua paz mundial. Infelizmente, foi isso mesmo que aconteceu e a triste realidade é que há muito poucas diferenças entre uns e outros. Só é pena é no meio estarmos todos nós. Já dizia Camões "Que um fraco Rei faz fraca a forte gente". Já não estamos no século XIV, nem tão pouco falamos de D. Fernando I, o rei fraco que insistiu em casar com a divorciada e manipuladora Leonor Teles. Estamos em pleno século XXI e falamos do líder tácito do mundo ocidental, o fraco George W. Bush cujo QI rivaliza apenas com o vegetal que lhe dá nome. Será John Kerry o D. João I de que o mundo tanto precisa neste momento? Será que o povo, tal como em 1383-85 se vai revoltar nas urnas, de forma democrática, e fazer tudo por eleger alguém que verdadeiramente os defenda, alguém que aceite a ordem natural das coisas na paz e viva no respeito pelo próximo?

Alguém que respeite o silêncio ensurdecedor dos mortos?

Alguém que não se esqueça de que naqueles comboios viajávamos todos nós.

Alguém que se lembre de que há sempre um comboio a partir de uma estação...

09/03/2004

Correr para o sucesso




Nunca fui muito dedicado à prática do desporto. Foi, de facto, mais um dos muitos erros que percebo que cometi ao longo minha vida. No entanto, mais vale tarde do que nunca. Depois de começar a dedicar-me ao BTT, que continuo a praticar com inegável prazer, resolvi que não era muito normal não conseguir correr mais de dois minutos sem ficar absolutamente ofegante e quase a cair para o lado. Decidido a resolver este problema, fui falando com algumas pessoas durante o período em que comecei a tomar balanço para me atirar com unhas e dentes à resolução deste fútil mistério que me atormentava. Falei com o meu cunhado e com colegas dele, todos licenciados pela Faculdade de Motricidade Humana, falei com o Nando, corredor amador, enfim, fui falando com várias pessoas. O facto é que todos me diziam que, salvo um problema de foro clínico, não havia motivo nenhum aparente para que não conseguisse fazer algo de tão natural no homem: correr. Decidido a resolver o problema, comprei um livro (sim, eu sei que a solução parece ser um pouco repetitiva mas é de facto nos livros que tenho encontrado a resposta a muitas das minhas dúvidas/problemas) para iniciados na arte de correr. Li-o de fio a pavio (mais de 700 páginas!), estudei os planos de treino, as questões fisiológicas, os sábios conselhos do autor (Bob Glover) e foi armado deste fundado conhecimento que tentei.

Tentei e não consegui correr. Apesar de perceber a teoria toda, a prática derrotava-me continuando a ficar de rastos com uma miserável corridinha de 3 minutos. Confesso que este revés me desanimou e deixei de lado a corrida por umas semanas, voltando a dedicar-me ao BTT. No entanto, sempre que trepava uma subida daquelas mais a doer da Serra da Arrábida, questionava-me como diabo seria possível conseguir fazer um inegável esforço físico sobre a bicicleta e ser incapaz de dar uma corridinha sem ficar ofegante e quase a cair para o lado.

Passadas umas semanas, voltei à carga, reli umas passagens do livro, tentei perceber um pouco melhor a técnica de corrida e voltei a tentar um dos planos de treino do tipo “Como meter um estúpido a correr em três lições”: na 1ª semana: correr 1 minuto, andar 2, repetir o ciclo 6 vezes; na 2ª semana: correr 2 minutos, andar 1, repetir o ciclo 6 vezes, etc. De início, os resultados continuaram a não ser muito animadores. Mas insisti, ficando de rastos frequentemente, tentando sempre escalpelizar a técnica da corrida, da respiração, da passada, da forma de colocar os pés no chão sempre com o calcanhar primeiro, isolar os erros, perceber onde continuava a falhar. E de repente, fez-se luz. Os anjos e os querubins cantaram. Soaram os arautos da fortuna: consegui correr 30 minutos consecutivos sem cair para o lado. Lá fui treinando, aumentando gradualmente a distância/tempo de corrida. Só para dar uma ideia da maluqueira desta história, este fim-de-semana corri 19,8 km... seguidinhos, sem parar. Não imaginam como isto para mim é um marco histórico e absolutamente espantoso. Eu sei, parece um pouco inútil mas a vida faz-se destes pequenos nadas sem importância nenhuma.

Como corolário desta história, recentemente fiz algo que há um ano atrás julgaria absolutamente impossível: inscrevi-me para a Meia Maratona de Lisboa. São 21.097 metros que vou tentar correr sem ultrapassar em muito as duas horas, sempre para mais e nunca para menos. É já no dia 28 de Março. Até lá, há que treinar muito.