A ponte dos flácidos
Já falei aqui no episódio da ponte do dia 10 de Junho que Durão Barroso obstinada e, na minha opinião, acertadamente não concedeu à função pública. Entretanto, mudou o governo, mudaram as caras e, dizem eles, manteve-se o rumo, a coerência e a seriedade.
Como seria de esperar de um governo liderado pelo troca tintas Pedro Santana Lopes (PSL) e pelo andrógeno Paulo Portas (PP), apesar de os partidos serem os mesmos, houve algo que mudou radicalmente neste governo contestadamente cooptado com o apanágio do Presidente da República. Começámos com a ideia peregrina da mudança geográfica de alguns ministérios ou secretarias de estado, assistimos à inenarrável nomeação de acessores de imagem, consultores de estratégia e reformas douradas para a entourage do PSD. Tudo culminou com a aberração do problema da colocação dos professores que releva de uma incompetência gritante, se não mesmo dolosa, do interesse público.
Para compor o ramalhete, vão acabar, e bem , com as vias SCUT (Sem Custos para o UTilizador). Por exemplo, a A23 que vai de Torres Novas até ao IP2 vai passar a ter portagens. De facto, não passa pela cabeça de ninguém que o estado delegue a construção de estradas em terceiros e lhes conceda durante dezenas de anos subsídos de exploração das mesmas. Isto significa que os nossos netos ainda andarão a pagar as estradas que foram construídas agora. Mas mais triste ainda é o facto de o grande argumento para que se passe a pagar portagem nessas estradas ser, e passo a citar, o princípio do utilizador-pagador. Podíamos discutir indefinidamente este princípio que, em abstracto, me parece bem. Mas o Governo ainda tinha na manga o detalhe mais amalucado desta história: as populações locais estão isentas do pagamento das portagens. Ora, se os utilizadores maioritários destas auto-estradas são, certamente, as populações locais e estas estão isentas do pagamento da portagem, então o princípio é o do utilizador ocasional-pagador. Eis a lógica do (des)governo de PSL e PP no seu melhor:
Quem paga é quem usa, mas quem usa mais está dispensado do pagamento! Logo, paga quem menos usa.
Ora para suavizar o fardo de todas as asneiras que tem andado a largar sobre os ombros do povo, o Governo teve a óptima ideia de presentear os funcionários públicos com a ponte do dia 5 de Outubro.
Salta à vista uma clara diferença entre Durão Barroso e PSL. PSL premeia o imediatismo, o circo, o arraial político. Durão Barroso, percebemos agora, era infinitamente mais sério e, o tempo o dirá, mais competente. Nunca o imaginei, mas começo a achar que ainda vamos ter muitas saudades do Durão Barroso.
Estranho mesmo é que agora o PS, com o seu recém-eleito secretário geral , não venha a terreiro perguntar ao PSD exactamente que tipo de exemplo pretende dar ao país com a concessão deste diazinho de férias adicional aos funcionários públicos e, por tabela, à maioria do país. Estranho é o Partido Comunista não vir perguntar por onde anda o tão apregoado rigor tantas vezes invocado para pedir sacrifícios ao povo português. O Bloco de Esquerda parece alheado da questão. Talvez porque afecta pouco os homossexuais e as mulheres que querem fazer um aborto em liberdade.
Ainda agora se resolveu finalmente o problema do início das aulas e já vai tudo para o descanso? Andavam os sindicatos tão chocados com os atrasos e agora fica tudo imerso num silêncio quase envergonhado e vai gozar a ponte com um despudor total? Onde estão as associações patronais a protestar com veemência por este comportamento do Governo? Onde está o Ministro das Finanças a quantificar o prejuízo para o país de um dia de ponte? Se bem me lembro, eram milhões de euros.
Enfim, não havendo seriedade nem na classe política, nem na população em geral, o facto é que corados de vergonha e a ver se ninguém está a prestar muita atenção, aceitam envergonhadamente este dia de descanso adicional, encolhendo os ombros e dizendo “Já que insistem, aceito mas a contra gosto! Eu até nem aceitava, mas dadas as circunstâncias...”.
Juro que nestas alturas não tenho paciência nenhuma para estes dislates da canalha portuguesa!








