30/09/2004

A ponte dos flácidos



Já falei aqui no episódio da ponte do dia 10 de Junho que Durão Barroso obstinada e, na minha opinião, acertadamente não concedeu à função pública. Entretanto, mudou o governo, mudaram as caras e, dizem eles, manteve-se o rumo, a coerência e a seriedade.

Como seria de esperar de um governo liderado pelo troca tintas Pedro Santana Lopes (PSL) e pelo andrógeno Paulo Portas (PP), apesar de os partidos serem os mesmos, houve algo que mudou radicalmente neste governo contestadamente cooptado com o apanágio do Presidente da República. Começámos com a ideia peregrina da mudança geográfica de alguns ministérios ou secretarias de estado, assistimos à inenarrável nomeação de acessores de imagem, consultores de estratégia e reformas douradas para a entourage do PSD. Tudo culminou com a aberração do problema da colocação dos professores que releva de uma incompetência gritante, se não mesmo dolosa, do interesse público.

Para compor o ramalhete, vão acabar, e bem , com as vias SCUT (Sem Custos para o UTilizador). Por exemplo, a A23 que vai de Torres Novas até ao IP2 vai passar a ter portagens. De facto, não passa pela cabeça de ninguém que o estado delegue a construção de estradas em terceiros e lhes conceda durante dezenas de anos subsídos de exploração das mesmas. Isto significa que os nossos netos ainda andarão a pagar as estradas que foram construídas agora. Mas mais triste ainda é o facto de o grande argumento para que se passe a pagar portagem nessas estradas ser, e passo a citar, o princípio do utilizador-pagador. Podíamos discutir indefinidamente este princípio que, em abstracto, me parece bem. Mas o Governo ainda tinha na manga o detalhe mais amalucado desta história: as populações locais estão isentas do pagamento das portagens. Ora, se os utilizadores maioritários destas auto-estradas são, certamente, as populações locais e estas estão isentas do pagamento da portagem, então o princípio é o do utilizador ocasional-pagador. Eis a lógica do (des)governo de PSL e PP no seu melhor:

Quem paga é quem usa, mas quem usa mais está dispensado do pagamento! Logo, paga quem menos usa.

Ora para suavizar o fardo de todas as asneiras que tem andado a largar sobre os ombros do povo, o Governo teve a óptima ideia de presentear os funcionários públicos com a ponte do dia 5 de Outubro.

Salta à vista uma clara diferença entre Durão Barroso e PSL. PSL premeia o imediatismo, o circo, o arraial político. Durão Barroso, percebemos agora, era infinitamente mais sério e, o tempo o dirá, mais competente. Nunca o imaginei, mas começo a achar que ainda vamos ter muitas saudades do Durão Barroso.

Estranho mesmo é que agora o PS, com o seu recém-eleito secretário geral , não venha a terreiro perguntar ao PSD exactamente que tipo de exemplo pretende dar ao país com a concessão deste diazinho de férias adicional aos funcionários públicos e, por tabela, à maioria do país. Estranho é o Partido Comunista não vir perguntar por onde anda o tão apregoado rigor tantas vezes invocado para pedir sacrifícios ao povo português. O Bloco de Esquerda parece alheado da questão. Talvez porque afecta pouco os homossexuais e as mulheres que querem fazer um aborto em liberdade.

Ainda agora se resolveu finalmente o problema do início das aulas e já vai tudo para o descanso? Andavam os sindicatos tão chocados com os atrasos e agora fica tudo imerso num silêncio quase envergonhado e vai gozar a ponte com um despudor total? Onde estão as associações patronais a protestar com veemência por este comportamento do Governo? Onde está o Ministro das Finanças a quantificar o prejuízo para o país de um dia de ponte? Se bem me lembro, eram milhões de euros.

Enfim, não havendo seriedade nem na classe política, nem na população em geral, o facto é que corados de vergonha e a ver se ninguém está a prestar muita atenção, aceitam envergonhadamente este dia de descanso adicional, encolhendo os ombros e dizendo “Já que insistem, aceito mas a contra gosto! Eu até nem aceitava, mas dadas as circunstâncias...”.

Juro que nestas alturas não tenho paciência nenhuma para estes dislates da canalha portuguesa!

27/09/2004

A alucinação do senhor Nicolau - A contra-demagogia parte II



O senhor Nicolau anda preocupado com os pobres de Portugal. Parece que estes chatos do Governo andam a fazer-lhes maldades. Primeiro, foram as suas Contas Poupança Qualquer Coisa (CPQC) que deixaram de contar para abater no IRS. Maldito Governo! Isso de andar a mexer nas CPQC dos barbeiros, padeiros e, porque não dizê-lo, dos comentadores residentes do Expresso, não se faz!

O que nós não sabíamos é que o senhor Nicolau, quando passa a sua flácida verborreia para o papel, o costuma fazer de cigarro ao canto da boca e de whisky sobre a mesa. Pois é, esta semana ele insurge-se, mais uma vez de forma irada e pateticamente pungente, contra os eventuais aumentos do imposto sobre o tabaco e as bebidas alcoólicas.

Diz o alienado senhor Nicolau que [...] este Governo Robin dos Bosques que nos governa quer decididamente acabar com estes 30% de ricos, a quem há quem chame classe média, para dar aos pobres. E assim o ministro das Finanças prepara um grande aumento do tabaco, cujo maço pode chegar aos 5 euros. O ministro já sabe que quem fuma são os ricos. Por isso, há que taxar-lhes fortemente o vício.

E acrescenta irado [...] É claro que pode haver sempre o problema do contrabando de tabaco subir em flecha ou os ricos desatarem a ir a Espanha comprar os maços (e, já agora, uns charutos, que lá também são mais baratos).

O senhor Nicolau anda totalmente alucinado e, quiçá, a precisar de férias. Mais uma vez atira postas de pescada para o ar sem concretizar muito bem as alternativas. Talvez fosse melhor aumentar os impostos sobre a carne ou o leite para não incomodar os fumadores e apreciadores das bebidas espirituosas.

Quem sabe se o senhor Nicolau não está preocupado com o milhão de alcoólicos que há neste país. De facto, deve haver poucos países na Europa onde se consiga comprar uma garrafa de vinho por menos de 1 euro. Claro que a solução é manter o imposto sobre as bebidas alcoólicas baixinho para não perturbar os bebêdos. Já quanto ao problema do contrabando, parece que a solução é ter impostos leves para não estimular a sua existência. Excelente ideia, senhor Nicolau!

Aparentemente, o senhorNicolau andava a fumar mais desde que soube do problema das CPQC e até estava a beber um pouco mais do que o habitual. Que maçada, agora já nem isso vai poder fazer em paz e sossego.

Mas que nem vos passe pela cabeça que é esta privação pessoal que preocupa o senhor Nicolau.

Altruisticamente, o verdadeiro dilema do senhor Nicolau é que neste país há pobres que vão deixar de poder beber e fumar à vontade!

Após meditar sobre o assunto, percebi o porquê de todos estes dislates do senhor Nicolau. O homem chama-se Nicolau Santos. Ora, este nome parece ser o disfarce perfeito para Santos Nicolau ou Santo Nicolau. Familiar? Exacto! São Nicolau é o santo que está na origem do mito do Pai Natal! O senhor Nicolau é o Pai Natal dos pobrezinhos disfarçado de comentador residente do Expresso. Daí a sua obcessão com esse outro mito da cultura ocidental, o Robin dos Bosques.

Ele jamais deixará um governo armado em Robin dos Bosques ofuscar a sentida preocupação do Pai Natal pelo pobrezinhos.

Afinal, a honra do Pai Natal está acima de um qualquer Robin dos Bosques da treta!

Um «passeio» de 21.097 metros pela zona oriental de Lisboa



No dia 26, às 10:30, lá estive na partida para a Meia Maratona de Portugal de 2004. A prova contou com cerca de 2400 participantes na Meia Maratona e cerca de 13.000 na Mini Maratona. Foi a minha primeira participação nesta prova. O percurso desta prova por comparação com a Meia Maratona de Lisboa é muitíssimo mais exigente. Trata-se de uma prova toda feita de subidas e descidas, resultando num percurso bem mais duro que o da Meia Maratona da Ponte 25 de Abril. Eu achava que a prova tinha duas grandes subidas de respeito, mas estava enganado. A prova é toda ela feita aos altos e baixos, com subidas intensas. Para dificultar ainda mais as coisas, estava calor. Voltei a encontrar o Pedro Marinho antes da partida, no meio de milhares de pessoas sem termos combinado nada nem procurarmos um pelo outro. É uma espécie de Lei de Murphy pela positiva: Se tiverem de se encontrar, encontrar-se-ão!


Imagem da partida sobre a Ponte Vasco da Gama

Pensei que conseguiria fazer um tempo próximo das 2 horas e 10 minutos, mas fui demasiado optimista. Consegui fazer 2:17:54. Infelizmente, fiquei um pouco aquém do objectivo traçado que era ficar próximo de um tempo de 2:10:00. Quase não tive problemas de pontada abdominal, para o que deve ter contribuído ter corrido de uma forma mais defensiva. Enfim, apesar de tudo lá consegui retirar mais de dois minutos à minha melhor marca para a meia maratona.

A prova começa logo com a subida para o tabuleiro da Ponte Vasco da gama que deve ter quase 3 quilómetros. Não é uma subida muito pronunciada, mas é muito longa. Depois, saímos da Vasco da Gama para o IC2 no sentido de Moscavide correndo no sentido contrário ao trânsito. Após cerca de 1 km, surge um viaduto que tem uma subida e descidas pronunciadas. Sendo imediatamente antes do ponto de viragem, é feito nos dois sentidos valendo por duas subidas e duas descidas. Já na Av. Infante D. Henrique temos mais uma subida até chegarmos ao túnel sob a praça José Queirós. Aí, saímos na primeira à direita para uma subida pronunciada pela Av. Dr. Alfredo Bensaúde até uma rotunda, onde viramos à esquerda a 180º em direcção à Praça José Queirós. Andamos pelos Olivais para cima e para baixo, passamos junto ao Complexo Desportivo das Piscinas dos Olivais e voltamos a subir até virarmos à esquerda para a Av. de Berlim. Aí, temos uma longa descida pela Av. de Berlim abaixo onde estabeleci o meu quilómetro mais rápido (05’ 46’’), que termina quando chegamos à Gare do Oriente. Viramos à direita na Av. D. João II no sentido da Rotunda do Príncipe Perfeito. Na rotunda descrevemos 180º e percorremos toda a Av. D. João II no sentido contrário, com uma passagem inferior sob a Rotunda D. Manuel I e ainda outra passagem inferior antes de chegarmos à rotunda da Ford. Todos estes cruzamentos desnivelados têm descidas e, sobretudo, subidas pronunciadas, que custam muito quando já levamos 16 ou 17 km nas pernas. Finalmente, entramos na Alameda dos Oceanos onde já conseguimos vislumbrar a meta a cerca de 1 km. Para apimentar a parte final da prova, esta avenida é toda feita sobre uns paralelepípedos extremamente desconfortáveis que parecem agulhas a entrar pelos pés a dentro.


Na zona da meta

Acabei a prova sem me sentir muito cansado. Durante a parte final da prova ultrapassei vários outros corredores. No entanto, foi apenas ao analisar a folha oficial de tempos da prova que constatei que no final ultrapassei 37(!) corredores que tinham passado à minha frente no ponto de cronometragem intermédio, tendo sido apenas ultrapassado por 11 atletas.


À chegada em frente à pala do Pavilhão de Portugal

Preciso de resolver a quebra acentuada que continuo a ter após os 10 km. Tenho de estudar como posso treinar para colmatar esta falha. Vou também treinar para tentar correr os 10 km num tempo mais próximo dos 50 minutos. Actualmente, o meu recorde pessoal para o quilómetro são 5' 10'', por isso afigura-se como uma tarefa bem difícil.
Em Outubro vou participar na Corrida para a Saúde Mental a convite do Nando e estou a ponderar se vou participar nos 20 km de Almeirim.

A propósito de Nando, registo para o facto de ter voltado a correr 18 meses após o seu grave atropelamento na Av. da República. Tendo em conta as sequelas resultantes do acidente, é muito bom vê-lo novamente a correr sem dificuldades de maior. Ainda me lembro da sensação de libertação quando finalmente conseguimos voltar a fazer as coisas mais banais. É como se tivéssemos andando durante meses com as mãos presas dentro dos bolsos e agora andássemos feitos tontinhos aos pulos e a abanar os braços por cima da cabeça só pelo simples facto de conseguirmos fazê-lo.

Para a história, a prova foi ganha pelo queniano William Kiplagat com um tempo de 1:01:38, conseguindo bater o recorde da prova por 2 segundos. Os 9(!) primeiros classificados foram atletas quenianos, sendo o 10º classificado Hermano Ferreira, o melhor português e não-queniano da prova.

21/09/2004

A contra-demagogia



O ministro Bagão Félix resolveu acabar com os benefícios fiscais das Contas Poupança Qualquer Coisa (CPQC). Ouviu-se de imediato um coro de protestos pelo ataque que ele estava a fazer a essa entidade difusa e convenientemente amorfa que é a Classe Média. Francamente é uma problemática que não me preocupa por aí além. Nem me choca de todo.

Infelizmente, o ministro teve uma tirada algo infeliz e profundamente demagógica ao afirmar que, qual Robin dos Bosques Lusitano, estava a tirar aos ricos para dar aos pobres. Afirmou que tinha estudos que indicavam que quem usufruía maioritariamente dos benefícios fiscais inerentes a estas contas, era o terço superior dos contribuintes, ou seja os mais ricos. Eis um exemplo acabado de infeliz demagogia e populismo inesperado. A demagogia tem sobre os políticos um efeito semelhante ao de um abismo quando olhamos para baixo: puxa-nos de uma forma quase irresistível!

Demagogia tem a seguinte definição no dicionário da Texto Editora: "governo ou actuação política pautada pelo interesse imediato de agradar às massas populares, com o fim de alcançar o poder ou de o manter". Temos ainda o compagnon de route predilecto da demagogia que é o Populismo: "política que se orienta pela obtenção do favor popular, através de medidas que agradem sobretudo às classes com menor poder económico".

Ora, no passado fim-de-semana, surge no semanário Expresso um artigo de opinião de Nicolau Santos que faz a chamada contra-demagogia. Diz o senhor no seu artigo intitulado "No meu bairro está tudo rico", entre outras pérolas, que o merceeiro e padeiro deste seu bairro, entre outras nobres profissões do povo, vêem agora as suas CPQC estão em risco.

Afirma ele que "A sra. Ana, ajudante na farmácia, resolveu começar a colocar uns trocos numa Conta Poupança Habitação, visando a compra de uma casinha quando chegar aos 30, ela que têm agora 24. Desde quinta que não aparece no emprego e mandou dizer que não consta que os ricos trabalhem. Acha estranho que a conta bancária continue próxima do zero no final do mês". Quantos portugueses andam com as contas próximas do zero mantendo obstinadamente a CPQC? Podemos não ter dinheiro para o dia a dia, mas mexer na CPQC é nunca!

Volta o amigo Nicolau à carga: O sr. João da padaria convenceu-se, há três anos, que era bom fazer um PPR-E, porque o filho ia bem no liceu e depois quereria certamente não só concluir um curso universitário, como também tirar talvez um MBA. Nessa altura, o PPR-E daria jeito. Sim, porque isto de viver numa país onde se tem de pagar uma fortuna em propinas universitárias, em tudo semelhante aos EUA, dificulta o acesso à universidade e o melhor é ter uma CPQC para o que der e vier.

Seria interessante que o sr. Nicolau Santos nos explicasse em que dados concretos se baseou para afirmar que os merceeiros, padeiros, ajudantes de farmácia e agentes imobiliários constituem uma amostra representativa dos detentores de CPQC.

Este artigo do sr. Nicolau não é mais do que pura contra-demagogia. É profundamente populista e feito para nos deixar a acenar com a cabeça numa apática e mecanizada concordância com o sr. Nicolau. É o tipo de artigo popular nos barbeiros (os que têm CPQC e o Expresso disponível para os clientes lerem em vez do Correio da Manhã e a Bola... os barbeiros do bairro do sr. Nicolau), das paragens de autocarro (sim, existem paragens de autocarro neste país onde as pessoas estão a ler o Expresso e não o 24 Horas ou O Crime, naturalmente que estão todas no bairro do sr. Nicolau) e dos bancos dos jardins públicos onde reformados exaltados discutem este artigo (nos jardins municipais do bairro do sr. Nicolau lê-se o Expresso e não A Capital ou o Tal & Qual).

Já agora, gostaria de saber que bairro tão habilmente fantasista é esse em que mora o sr. Nicolau Santos... provavelmente mora na Rua Sésamo! Consta que o Popas e o Monstro das Bolachas estão preocupados porque as suas CPQC vão ser afectadas por esta decisão do Governo!

17/09/2004


O Gil Vicente dos nossos dias

Resposta de um aluno de liceu a uma pergunta sobre a obra dramática de Gil Vicente, transcrita no Público de 11.8.2004:

"Eu não tenho dúvidas que o Gil Vicente é muito importante, a pesar de nunca ter ganhado o campionato de futebol. É importante porque ás vezes ganha ao Benfica, otras ao Sporting e otras ao Porto, tirando a eles o primeiro logar. E também por isto é que a sua obra é dramática porque é um drama para os benfiquistas, os sportinguistas e os portistas quando ganha."

14/09/2004


E se a Terra parar de rodar?

Crónica de António J. Branco no Diário Digital de 10/9/2004
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...Um Director de Curso (DC) é sempre uma figura que fica na memória de qualquer um. E este DC, pelo seu ar macambúzio, espessos óculos de lentes grossas e um corpo atarracado; todo o conjunto embrulhado numa maneira de falar muito peculiar, principalmente caracterizada por alguma timidez e gaguez até, ficou obviamente na lembrança de todos nós. Era ainda frequente, para além dos alunos que se riam às escondidas dos seus tiques e das suas deixas nas aulas quando não sabia o que havia de dizer, - “Um oscilador serve para oscilar” e, “Uma resistência serve para resistir”, - os outros professores também gostarem de mandar as suas piadinhas ao capitão DC.
Numa das aulas de Física, ministradas por um professor civil que era engenheiro, discutiam-se os movimentos sismológicos da terra, como consequência ou causa dos movimentos de rotação e de translação. Fazíamos uma daquelas pausas que os alunos gostam muito, porque não se dá matéria e se está na boa vida, e o professor, porque estava na boa vida e não tinha que dar matéria. A situação estava assim perfeitamente equilibrada; aliava o pouco interesse dos alunos, à falta de vontade do engenheiro professor.
- E se a terra parar no seu movimento de translação? - perguntou o sábio da turma, que era Guarda da Polícia de Segurança.
- Bem, o mais provável – respondeu o engenheiro professor com ar pensativo – é que seja atirada para o espaço e vá colidir com outro qualquer planeta ou asteróide, ou sei lá, desintegrar-se.
- Eu acho que não – intervenção de um aluno normal – se a terra parar de girar em volta do sol, fica simplesmente parada e não acontece nada, a diferença é que fica noite permanentemente para uns e dia permanentemente para outros.
- Mais opiniões. - pediu o professor a saltitar de contente com o rumo da discussão, esfregando as mãos e batendo as palmas, porque já sabia que naquele dia não ia dar mais matéria.
- Eu acho que – outro aluno normal – o movimento de translação só pode parar se todo o Universo parar, já que o cosmos se rege todo ele pelas mesmas leis físicas.
- Não deixa de ter razão – concordou o professor – mas no contexto da nossa discussão interessava-nos mais saber apenas em relação à terra e não em relação ao universo em si, porque essa seria uma discussão de âmbito muito mais alargado.
- Então, e se a terra parar no movimento de rotação? – o sábio Guarda voltava ao ataque.
- Bem, aí a coisa é completamente diferente. – disse a comunidade de alunos falando e gesticulando para estabelecer ainda mais a confusão e tentar impor a razão de cada qual. Uns defendiam a existência imediata de terramotos, de movimentos sismológicos intensos e completamente destruidores; outros partilhavam a teoria das ondas gigantes, dos maremotos e da absorção da terra pelo mar, do nivelamento da superfície e da extinção imediata de toda a espécie de vida por colisão total. Outros ainda, a pura e imediata autodestruição por desintegração. Não ia sobrar nada, nem sequer pó.
No meio da acalorada discussão entrou o Director de Curso e como não bateu à porta, (nem tinha que bater), perguntou de chofre:
- O que é que se passa aqui, isto é que é uma aula de física?
- Ainda bem que chegou senhor capitão – disse de imediato o engenheiro professor – vai ajudar-nos a formular uma opinião para uma questão levantada, onde ninguém está de acordo.
- Qual... qual é a questão? perguntou hesitante o Capitão DC.
- É o seguinte, - esclareceu o engenheiro - estamos a discutir as consequências para a toda a espécie de vida e matéria, se a terra parar repentinamente no seu movimento de rotação.
Toda a assembleia calou vozes em expectativa pela resposta. O capitão DC tirou os óculos de grossas lentes, mordeu nas hastes; primeiramente na esquerda e depois na direita, ajeitou a pasta debaixo do braço, voltou a pôr os óculos, tirou-os de novo, voltou a morder a haste direita dos óculos, revirou as sobrancelhas, fez que tossiu e disse finalmente quase só para si murmurando:
- O que é que acontece se a terra parar de rodar...
O engenheiro ouviu e repetiu a pergunta, qual carrasco vangloriado pela armadilha lançada.
- Sim, se a terra parar de rodar, o que é que acontece?
- Bem...bem... - murmurou o DC, para a seguir perguntar com sábia hesitação: E...e...a terra pára para todos?...