29/10/2004

A greve da mulher de César



Os trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos marcaram uma greve para esta Sexta-feira. Parece que estão preocupados porque o ministro das finanças quer misturar o fundo de pensões dos trabalhadores da CGD com o do resto da ralé dos funcionários públicos. Isso não se faz... francamente! O que salta à vista sobre esta simpática greve dos balcões da CGD é o facto de, como quase todas as greves modernas, ter sido marcada para uma sexta-feira. E não o foi para uma sexta-feira qualquer! Foi marcada para uma sexta-feira que antecede uma segunda-feira que vai ser feriado. Portanto, a malta da CGD conseguiu matar dois coelhos com uma só cajada: faz greve de protesto contra o governo e vai laurear a pevide para descansar da canseira de ter de trabalhar.

A falta de seriedade desta malta é aviltante. Melhor do que isto só os médicos e os professores que também têm uma especial predilecção por greves coladas a fins-de-semana prolongados. Dir-me-ão que, no fundo, eles estão no seu pleno direito de fazer as coisas desta forma. Na realidade estão, mas lá diz o adágio: à mulher de César não basta ser séria, também tem de parecê-lo!

26/10/2004

As dúvidas dos ímpios

Durante o último «clássico» Benfica-FC Porto, que o FC Porto venceu por 0-1, houve grandes dúvidas sobre se um enorme frango da autoria de Vítor Baía tinha sido salvo in extremis com a bola já dentro da baliza ou ainda fora. Ora o site Mais Futebol, avança com algumas teorias que surgiram entretanto.

O árbitro Olegário Benquerença (meu Deus, que nome!) diz que não viu nada.



A lampionada diz que a bola entrou toda.



Os andrades dizem que nem esteve lá perto.



O portista ferrenho Miguel Sousa Tavares diz que a bola nem estava perto da baliza.



A lampiona abjecta Leonor Pinhão diz que a bola estava claramente lá dentro.



Os mais científicos explicam, recorrendo à trigonometria, que a bola não entrou por completo.



O facto é que é quase impossível, em tempo real, dizer se a bola entrou totalmente na baliza ou não. Claro que a lampionada não gostou de perder... paciência.

Resta dizer que no fim do jogo houve cenas de uma baixeza tal, que nem nas mais reles casas de alterne do Porto, geridas pelo especialista na matéria Reinaldo Teles, se deve ter passado e dito o que Pinto da Costa, José Veiga, Catarina Salgado e Luís Filipe Vieira disseram uns aos outros. Aliás, Catarina Salgado deu um exemplo da (pouca) educação e savoir être que pode existir numa esposa do presidente de um clube de futebol, ao empunhar um cartaz, na bancada do estádio da luz, que chamava Orelhas ao presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira. Ei-la em todo o seu esplendor, na companhia dessa outra figura mítica da tribo portista, o famoso Guarda Abel. Dois exemplos acabados de figuras-modelo da sociedade portista.



Haverá pessoa de bem, adepto de futebol, que não se sinta enojado com esta canalha?

25/10/2004

A água de figo




Certo dia, no laboratório de testes da fábrica Frize, reuniram-se os técnicos do departamento de química nutricional, como sempre faziam, para decidirem sobre que novo sabor disponibilizar na gama de águas Frize. Nessa reunião, seria seleccionada a água com melhores possibilidades de singrar no mercado.

Durante essa semana, os técnicos tinham tido mais em que pensar do que nos sabores das águas já que estávamos em pleno Euro 2004 e Portugal estava a ter um óptimo desempenho. Foi por esse motivo que, à última da hora, tiveram de desenvolver rapidamente os sabores para a prova de selecção dessa semana. Com pouca imaginação, o único sabor que tinham desenvolvido segundo os planos de estudo tinha sido o de figo. «Até calhava bem», pensaram, «sempre era o nosso jogador mais emblemático!»

Faltavam os restantes cinco sabores para compor o lote de seis sabores que tinham de ter disponível para a selecção. Na quarta-feira continuavam a ter apenas o sabor de figo e o tempo começava a fugir velozmente em direcção ao prazo. Pensaram nos sabores de melancia, mas o ano até tinha sido mau para melancia, baunilha, era demasiado intenso, pêra, era quimicamente instável, alcachofra, só se venderia no Algarve, banana, enjoativo.

Finalmente, o engenheiro químico António Carlos Valadares, Tóca para os amigos, teve uma ideia brilhante e que poderia salvar a equipa nessa tormentosa reunião com a direcção comercial. «E se fizéssemos uns sabores absolutamente nauseabundos para lhes direccionar a escolha para o sabor de figo que já temos prontinho?». Houve um silêncio pesado na reunião... A maior parte dos participantes, tinha passado uma larga parte da noite aos pulos sobre uma vestal seminua que ladeava a base da estátua do Marquês de Pombal gritando «E quem não salta, não é da malta», ao mesmo tempo que lhe apreciava os mamilos de rocha sedutoramente espetados. Era por este motivo que quase todos conseguiam ouvir o seu próprio sangue a circular nas artérias a cada bombada do coração. Dada a condição física da rapaziada, naquela reunião, o silêncio representava um ruído ensurdecedor. Foi por isso que o tresloucado plano do Tóca foi aceite e posto em marcha.




Para além do sabor a figo, foram propostos mais os seguintes cinco sabores: sardinha, pepino, mão de vaca com grão, caracóis e alho. Numa antecipação segura, o Tóca anunciou, ao melhor jeito dos Óscares, num sotaque de arrepiar, «Ande the weiner iz...fáigo». O grupo emocionou-se ao recordar o jogo genial de Figo contra a Holanda, permanecendo durante alguns segundos absortos, de os olhos no chão. Não havia como fugir-lhe, era a catarse futebolística do país.

Sexta-feira, 11:00, reunião de produção. Sobre uma mesa estão seis garrafas com o familiar formato das garrafas Frize. Todas tinham uma etiqueta branca por cima do nome do sabor nelas contido. A ideia era que os executivos provassem e reconhecessem o sabor. Era um procedimento já habitual e nem eram necessárias grandes explicações. A equipa de químicos assistia à prova numa sala por trás de um espelho, tipo esquadra da polícia, a partir de onde podiam aquilatar das reacções dos executivos.

A primeira garrafa disponível era com sabor a figo. Tinha sido ideia do Tóca e o objectivo era, segundo ele, seguir a regra de ouro da organização mental humana que diz que nos lembramos sempre melhor do início e do fim de qualquer sequência, do que do meio. Portanto, quebrava-se o gelo logo com o sabor vencedor, relegando para as calendas gregas todas as hipóteses dos restantes sabores.

A expressão de desagrado com o primeiro sabor, figo, era inequívoca. No entanto, o nojo e a repulsa do sabor seguinte, sardinha, revelavam bem como a trama havia sido bem urdida. Seguiam-se os odiosos pepino, mão de vaca com grão, caracóis e alho. Os executivos estavam boquiabertos com a aparente alienação da equipa de químicos. «Há aqui sabores que nem consigo identificar correctamente», dizia um. «Houve aqui um sabor que, de repente, me transportou para os almoços em casa da minha mãe... ela adorava mão de vaca e carregava sempre tanto no alho», «Parece que estou numa sardinhada, isto tem potencial» dizia um dos executivos que era um vegetariano inveterado e que delirava com a ideia de poder saborear carne sem ter de realmente comê-la. Na sala dos químicos, surgiam pequenas gotículas de suor nas testas dos membros da equipa. Nunca, até hoje, haviam saído de uma prova destas sem uma escolha para um novo sabor a produzir. Estava em jogo a honra da equipa!

Foi então que o chefe da equipa de produção proferiu o seu veredicto. «Confesso que de todas, gostei mais da primeira. Apesar de me saber a figo, que eu acho odioso, pareceu-me ser a melhor...». Ao dizer o nome do capitão da selecção de todos nós, todos baixaram imediatamente a cabeça, fechando os olhos por brevíssimos décimos de segundo. O país venerava o grande jogador e a ideia de ter uma água com o seu nome pareceu, de repente, uma excelente jogada comercial. Pena era que todos os restantes membros da comissão concordassem que a água era perfeitamente repulsiva, apesar de ser, inquestionavelmente, a melhor do lote. Entre a equipa de químicos, a alegria era clara. O plano tinha resultado em pleno. Afinal, tal como o Tonhão, primo de Tóca, havia vaticinado, «Os executivos da fábrica são tão estúpidos que hão-de escolher o sabor a figo que é que nem ginjas!»

E foi assim que foi tomada a infeliz decisão de vender uma água Frize com o abjecto sabor a figo, como diria o Pedro Tochas no anúncio, e para que não houvesse confusões, «o fruto»...

20/10/2004

É uma cabala portuguesa, com certeza!




O inenarrável ministro Rui Gomes da Silva, essa personagem tragicómica da entourage política nacional, conseguiu afirmar, durante uma audição com a Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS), que havia em Portugal uma cabala organizada contra o coitadinho do (des)governo de Pedro Santana Lopes. Afirmou, entre outras alarvidades, que a cabala tinha os seguintes contornos:

«O que o Expresso trazia ao sábado era, no dia seguinte, glossado no Público, e Marcelo Rebelo de Sousa domingo à noite desenvolvia o tema», disse o ministro, queixando-se de afirmações «falsas» e «constantemente negativas» por parte do ex-presidente do PSD em relação à actuação do Governo.

Ainda teve a lata de referir que «Marcelo Rebelo de Sousa era um interveniente activo politicamente», e que gostaria que a TVI «ouvisse outras posições». Seguramente que este inútil ministro já levava prontinha no bolso uma lista de comentadores pro-governo devidamente autorizados. Esta observação de Rui Gomes da Silva surpreendeu os elementos da AACS, porque parecia dar a entender que, de alguma maneira, tentava influenciar a programação da TVI. Mas essa ideia foi totalmente rejeitada pelo Ministro dos Assuntos Parlamentares. Certo. Lá diz o povo que não há bruxas, mas que as há, há!

Quando defendeu a sua pièce de resitance, que era a não observação do já famoso princípio do contraditório, teve de se sujeitar à humilhação de ouvir os membros da AACS lhe recordarem que esse princípio apenas se aplica em termos de informação e ao nível noticioso, nunca ao nível do comentário político. Por enquanto, os comentários políticos ainda são da responsabilidade de quem os profere e basta.

Esperamos ansiosamente a destituição deste Pseudo-Ministro dos Assuntos Parlamentares, que tem a seu cargo essa tarefa hercúlea, que precisa de um ministro e ministério inteirinhos, que consiste em falar com os deputados da Assembleia da Reública. O país agradece e estou certo de que, em última análise, o Governo também.

19/10/2004

As entranhas da Arrábida

Vou partilhar aqui neste espaço umas fotografias que impressionam pela crueza revelada e pelo infeliz futuro que vaticinam para a Serra da Arrábida. Como todos sabem, em pleno Parque Natural da Arrábida está instalada uma cimenteira da Secil.




Nesta primeira fotografia é possível identificar no canto superior direito a malha urbana da cidade de Setúbal, do lado direito da imagem a península de Tróia com as suas praias magníficas e, exactamente ao centro, a cimenteira da Secil e as pedreiras adjacentes. Podem clicar nas imagens para vê-las ampliadas.

Claro que todos nos questionamos sobre que haverá de mais natural do que permitir, num parque que se afirma N-A-T-U-R-A-L, a existência de uma cimenteira industrial de enormes dimensões.




A cimenteira instalou-se no Vale da Rasca e no Outão em 1904. Nesse tempo longínquo, produzia 10.000 toneladas de cimento por ano. Na década de 70 do século XX, já produzia 1.000.000 de toneladas anuais de cimento, tornando-se na maior fábrica de cimento nacional.




Basta ver as fotografias para perceber como estão, literalmente, a comer a Serra da Arrábida.

Fica a pergunta no ar: até quando?

11/10/2004

Os demolidores Trilhos da Pedra Branca

No domingo, dia 10 de Outubro, o João Nuno e eu participámos em mais um passeio da BTTour, denominado “Os Trilhos da Pedra Branca”, com uma extensão total de 39 km. Estabelecemos a nossa base no Tramagal, para onde fomos na sexta-feira, já que o passeio se desenrolou no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros que fica a apenas 60 km do Tramagal.


Os preparativos para a partida para as Serras de Aire e Candeeiros

Eles bem avisaram que o passeio era de nível de dificuldade 5 em 5, o máximo. E foi realmente demolidor! Claro que não ajudou nada ter chovido bastante nos dias anteriores e mesmo durante o próprio passeio.


Uma amostra de um trilho de calhaus na subida para a Fórnea

As Serras de Aire e Candeeiros são um maciço calcário de onde podiam ter sido extraídas todas as pedras de calçada do país. Aliás, os trilhos por onde andámos ao contrário de estradões de terra batida ou encostas graníticas, eram um enorme tapete de lascas de pedras de calçada que variavam entre o muito pequeno e enormes calhaus. E não estou a exagerar... a comparação possível é como se um qualquer calceteiro gigante tivesse andado a partir pedras de calçada e as largasse aos milhões pelas estradas da serra, forrando-as a lascas de pedras de calçada.


A vista do alto da Fórnea, fantástica!

Conclusão, com a chuva, a lama, o musgo e alguma, pouquíssima, vegetação, havia zonas onde parecia que andávamos sobre gelo. É também um tipo de terreno perfeitamente demolidor para os braços e pulsos. Se juntarmos a isto subidas de arrepiar qualquer mortal que se preze e descidas com declives acentuados, temos um passeio de dificuldade realmente máxima, potenciada pelas péssimas condições atmosféricas com que nos deparámos. No briefing inicial, o José Neves avisou que o piso estava extremamente perigoso por causa da chuva e da lama, e que uma queda sobre este tipo de piso poderia facilmente resultar num braço ou perna partidos. Eu tive duas quedas, mas ambas foram, felizmente, absolutamente benignas. Tive alguma sorte, pois caí sempre de forma muito controlada e em zonas pouco perigosas.


Calhaus + calhaus + calhaus...


Sobre o passeio propriamente dito, começava com uma longa e penosa subida para a Fórnea, de onde podíamos desfrutar de uma fantástica vista sobre o maciço calcário. Depois, começava a excitante, e perigosa, Descida da Cobra que, fazendo jus ao nome, serpenteava encosta abaixo e onde rolávamos sobre, seguramente, milhões de calhaus que cobriam o trilho e convidavam a cautelas redobradas. Nesta descida havia de tudo: degraus tipo escada, enormes calhaus para galgar, curvas a 180° e uma vista deslumbrante encosta abaixo. Foi, seguramente, a melhor parte de todo passeio.



A descida da cobra

Depois de chegarmos à base da Fórnea, trepámos mais uns quilómetros e fomos ver a gruta a que se chama a Cova da Velha. Para lá chegar, tivemos de subir a pé a vertente da Fórnea que havíamos acabado de descer o que foi extremamente difícil. Eram uns bons 200 metros sempre a pique com uma inclinação francamente estuporada. Aqui, havia muita lama barrenta e espessa e foi muito difícil de subir e mais ainda de descer, apresentando um piso muito traiçoeiro. Achei curioso o percurso estar marcado com os símbolos dos caminhantes utilizados para marcar a Grande Rota das Aldeias Históricas e os Caminhos de Santiago. Quanto à Cova da Velha, era uma gruta francamente desinteressante. Um buraco na rocha e pouco mais. Uma enorme desilusão, à custa de um imenso esforço físico a pé!


E as vacas a pensar: gandas malucos...

Entretanto, o cansaço já começava a instalar-se e, para agravar a situação, eu e o João Nuno não tínhamos levado farnel para almoçar. Conclusão, estávamos a pedalar em intenso exercício físico desde as 10:30 da manhã e às 14:00 tínhamos comido 4 ou 5 barras energéticas e pouco mais. Valeu-nos a camaradagem de um companheiro que nos ofereceu uma banana seca para partilharmos. Nunca tínhamos comido tal coisa, mas não é nada mau. Aparentemente, não se vende por cá e aquela tinha vindo do Brasil. Não termos levado comida foi um erro estratégico que a mim me valeu uma parte final do passeio extremamente penosa, pois tive uma dificuldade imensa para manter a concentração no piso e nos obstáculos que surgiam nas descidas que faltavam. E acreditem que eram muitos!


Olha quem queria comer qualquer coisita... só há banana seca... © BTTour

Bom, mais a pé ou mais sentados sobre a bicicleta, lá fomos negociando as subidas que faltavam, que as descidas por esta altura já sabiam mesmo muito bem. Nesta zona do percurso, a lama era tão espessa que conseguia fazer uma pasta com os calhaus de calcário que havia pelo chão. Era de tal forma, que as rodas deixavam de rodar por esta pasta se prender nos calços dos travões e impedir a sua rotação, sobretudo na roda de trás.

Chegámos ao fim do passeio por volta das 16:00, comemos, como se não houvesse amanhã, o pão com chouriço e as tortas que a organização tinha à nossa espera, bebemos chá quentinho, trocámos de roupa, esperámos pelo sorteio de uns brindes finais e partimos por volta das 17:00 de regresso ao Tramagal onde chegámos por volta das 18:00.




Se as bicicletas chegaram neste estado... imaginem como é que nós chegámos!

Conclusão, este passeio foi de facto extremamente duro e longo. A bicicleta e eu levámos pancada como nunca tínhamos levado. Foi o mais difícil que já fiz até hoje, mas são estes passeios que ficam na memória. Felizmente, cheguei ao fim cansado, mas inteiro e satisfeito por ter conseguido negociar, de melhor ou pior forma, todos os inúmeros obstáculos e o intenso esforço físico.

06/10/2004

A lição do estratega Marcelo Rebelo de Sousa



Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) é comentador residente da TIV há vários anos, tendo por sua conta 45 minutos semanais no programa Jornal Nacional desta televisão. Sinceramente, achava-o chato, loquaz e tagarela. Havia domingos em que a crónica era verdadeiramente maçadora.

No entanto, surgia recorrentemente um problema já sobejamente conhecido em MRS: a sua tendência para puxar os cordelinhos do mundo político português. E era precisamente este o aliciante das sua intervenções. Os espectadores da TVI queriam ver sangue! Francamente, já não havia paciência para as suas meias-palavras, entendres misteriosos e recadinhos pessoais. Era a versão portuguesa da teoria da conspiração só que inventada e desmascarada pelo mesmo manipulador: o alter ego de MRS, um hábil Mestre dos Fantoches.

Era assim que semanalmente destilava pequenas intrigas e ódios pessoais, numa invulgar mescla de livros da semana, ferroadas pessoais, citações da semana, destaques cinematográficos e intrigas políticas. Para compor o quadro, era sempre acolitado pelos inúteis pivots da TVI que pareciam aqueles cãezinhos que abanam a cabeça na parte de trás do carro, com a diferença apenas de não abanarem o rabo e de haver uma maquilhadora para, sempre que havia um intervalo no Jornal Nacional, lhes limpar o fio de baba que escorria incontrolavelmente do canto da boca, enquanto permaneciam em contemplação do Sr. Professor.

É de notar ainda que entre os diversos ódios de estimação de MRS, Pedro Santana Lopes (PSL) estava seguramente integrado no pelotão dos cinco da frente. Mais um motivo para MRS não conseguir resistir a arrear forte e feio neste Governo. Quase sempre enaltecendo o anterior governo de Durão Barroso. Quase sempre com razão, note-se. Aliás o difícil é encontrar coisas bem feitas por este Governo. O problema está na forma perturbadora como o faz, nos sorrisos que desvela ao dizer, entre dentes, o nome de PSL...

Assim, este triste (des)Governo que nos governa delegou, com a falta de siso que o caractereriza, no Ministro dos Assuntos Parlamentares Rui Gomes da Silva (é preciso um Ministro inteirinho para tratar dos assuntos parlamentares?) a tarefa de verbalizar o ultraje e exigir que a sociedade portuguesa abra os olhos para os abusos que o ignóbil e descontrolado MRS dirige contra o actual Governo.

Segundo a TSF, em declarações à agência Lusa, disse sentir-se «revoltado com as mentiras e falsidades» que são proferidas todos os domingos «por um comentador que tem um problema com o primeiro-ministro», PSL. No seu último comentário na TVI, no domingo, Marcelo Rebelo de Sousa criticou a tolerância de ponto concedida hoje pelo Governo, referindo que essa decisão «é pior do que o pior» do ex-primeiro-ministro António Guterres. O ministro dos Assuntos Parlamentares apontou ainda que, em 2002, a Alta Autoridade para a Comunicação Social emitiu pareceres críticos sobre os debates semanais de domingo na RTP, entre Pedro Santana Lopes e José Sócrates, alegando a não participação de outras forças políticas na discussão. «Agora, que não há qualquer contraditório (com Marcelo Rebelo de Sousa na TVI), estranho que a Alta Autoridade para a Comunicação Social esteja em silêncio», criticou Gomes da Silva.» Como se a TVI não fosse livre de ter quem e muito bem entende, o tempo que quiser, a discorrer sobre o que bem lhes der na real gana! Esta exigência do contraditório então é risível! Um espaço de opinião é isso mesmo: uma opinião de quem a formula, da exclusiva responsabilidade de quem a emite. Nunca seria viável ter, sempre que alguém emitisse uma opinião na televisão, um painel de contra-opinadores para assegurar o tal princípio do contraditório. As televisões não são tribunais.

Na altura, a quente, MRS disse apenas, com a fleuma que o caracteriza, que falaria sobre o assunto no domingo seguinte.

Mas não esperou tanto. Numa jogada de verdadeiro Mestre dos Fantoches, com uma simples declaração pôs todos a dizer o que nunca diriam de outra forma. E que fez MRS? Disse que, depois de uma reunião a pedido do administrador da TVI (note-se como não foi ELE que pediu a reunião...), decidiu dar por terminada a sua colaboração com a estação televisiva e, consequentemente, a sua análise política dominical. Não deu motivos, não disse absolutamente mais nada.

O génio desta reviravolta está no facto de ele ter conseguido subverter os papéis de todos os intervenientes da cena política nacional. De imediato se levantou um coro de protestos pelo facto de ele estar a ser censurado. Por exemplo, o PS, pela voz de António José Seguro, considerou que a maioria silenciou uma voz incómoda numa altura em que Portugal precisa de um «pacto de pluralismo democrático». Imaginem a ironia, o PS a defender MRS!

Já o Bloco de Esquerda disse que «Sabemos agora que um Governo que tem três meses, depois de dois anos e meio, entrou já na fase de um delírio de antropofagia em que a maioria se come a si própria e dá um sinal fundamental de que na ânsia do controlo da comunicação social está disposta até a atropelar o professor Marcelo Rebelo de Sousa». Esta descrição gráfica tão ao jeito da geração X que sustenta a blague do Bloco de Esquerda, foi transmitida pela voz de um preocupado Francisco Louçã. Isto é um país de fracos. Em Cuba, o problema seria resolvido de uma forma bem mais eficaz, não é, Camarada Louçã? Só falta o PCP vir defender que ele não deve ser silenciado!

É também interessante observar o atestado de menoridade que a oposição passa à TVI, acusando-a nas entrelinhas de ser manietada pelo Governo! A TVI é uma televisão privada que, ao contrário do que nos tentam fazer entender com apelos pungentes ao interesse dos espectadores, vive de e para o dinheiro dos investidores. Suspeito que a esta situação não será totalmente alheio o facto de a TVI deter agora os direitos de transmissão da Super Liga Portuguesa e de querer potenciar a abjecção Quinta da Celebridades.

Esta subversão dos papéis é deliciosa e revela bem o domínio que MRS tem sobre o fenómeno da política. Conseguiu pôr os seus arqui-inimigos a protestar por ele. Puro génio! Ao mesmo tempo, ridicularizou de uma forma sagaz o Governo de PSL, revelando quão absurda foi a sua atitude.

Lá diz o povo que vozes de burro não chegam ao céu e agora o governo de PSL bem pode ficar a fazer declarações titubeantes de protesto e apelos pungentes à Alta Autoridade para a Comunicação Social para o boneco!

Lá dos confins do século XV, estou certo de que Nicolau Maquiavel esboçou um largo sorriso. Touché Sr. Professor!

04/10/2004

A ponte dos flácidos II: homenagem ao Conselheiro Acácio



No dia da própria ponte, Luís Bento, presidente da Federação Mundial de Recursos Humanos e consultor do Banco Mundial para a Administração Pública, afirma que uma média de cinco a seis pontes por ano pode custar à economia portuguesa 1% do Produto Interno Bruto (PIB). Diz ainda que tolerância de ponto concedida esta segunda-feira pelo Governo é uma «medida populista». Justificou, dizendo que o Governo está a dar um rebuçado ao eleitorado depois do vinagre das últimas semanas.

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou ontem na sua análise semanal na TVI, que este Governo de PSL «já lhe faz lembrar o pior de António Guterres» «É um péssimo exemplo, quando o ministro das Finanças vem dizer que é preciso trabalhar mais e mais produtividade, quando o ano lectivo ainda não começou, antes de começar já há tolerância de ponto», afirmou. «Este Governo está a transformar o engenheiro Guterres num caso de sucesso, repetindo no pior o que ele fez e levando-o ao colo até Belém», acrescentou.

Quanto à tolerância de ponto nas escolas, o Executivo tinha tomado a decisão salomónica de colocar a decisão nas mãos das escolas e a FENPROF aconselhou os conselhos directivos a seguirem a posição do Governo, uma vez que considera que os estabelecimentos de ensino não têm competência para decidir nesta matéria. Esqueceram-se, naturalmente, da preocupação pungente, e quase caridosa, que demonstraram para com os alunos que, pobres coitados e infelizes, ainda andavam por aí ao Deus dará sem aulas, quando apenas pretendiam malhar forte e feio no Governo e na Ministra. Desta forma, podem ir gozar a ponte sem arreliadores problemas de consciência.

Bom, já todos conhecemos a história do conto tradicional português "O Rei vai nu".

Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava de andar muito bem arranjado. Um dia vieram ter com ele dois aldrabões que lhe falaram assim: - Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido - bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte. - Oh! Mas é uma descoberta espantosa! - respondeu o rei. Tragam já esse tecido e façam-me o fato; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço. Os dois aldrabões tiraram as medidas e, daí a umas semanas, apresentaram-se ao rei dizendo: - Aqui está o fato de Vossa Majestade. O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu: - Oh! Como é belo! Então os dois aldrabões fizeram de conta que estavam a vestir o fato, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas: - Ficais tão elegante! Todos vos invejarão! Como ninguém da corte queria passar por tolo, todos diziam que o fato era uma verdadeira maravilha. O rei até parecia um deus! A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um fato que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia o rei resolveu sair para se mostrar ao povo. Toda a gente admirava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou: - Olha, olha! O rei vai nu! Foi um espanto! Gargalhada geral. Só então o rei compreendeu que fora enganado; envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.

Ora, depois do comentários de Luís Bento e Marcelo Rebelo de Sousa, hoje, dia da tolerância de ponto, vêm a terreiro os sindicatos e associações patronais que, repentinamente, perceberam que o rei ia de facto nu!

«Confrontado com o alerta de que o impacto das «pontes» e feriados pode atingir um impacto de 1 por cento do PIB em Portugal, a UGT duvida que os custos sejam tão elevados. João Proença considera, porém, que a tolerância de ponto devia ser ponderada em devido tempo. «A questão das pontes em Portugal tem de ser vista com antecipação e tomando medidas que não prejudiquem a economia, mas também que não sejam contra as pessoas», afirmou. O líder da UGT alertou ainda para a questão de Portugal ter uma das cargas horárias de trabalho maiores da Europa e para o factor de um dia de descanso ser uma mais-valia de motivação para os trabalhadores. ». Claro... a devida antecipação é falar apenas porque outros falaram contra a tolerância de ponto. Caso contrário, o amigo João Proença, que lamentavelmente teve de interromper o tempo que havia destinado a gozar a sua tolerância de ponto para dar esta entrevista, ficaria calado como os demais palermas do conto tradicional.

Já a CGTP diz que «espera que este debate não sirva para colocar em causa, os direitos dos trabalhadores, embora Carvalho da Silva considere que a tolerância de ponto que se vive hoje não tem qualquer razão de ser. «Esta ponte em concreto, do nosso ponto de vista, pura e simplesmente não se justifica», considera Carvalho da Silva, mencionando o contexto e os desafios que se colocam actualmente em Portugal, como é o caso da abertura tardia do ano lectivo. «Pode haver situações em que se deve ponderar, mas não é o caso. Acima de tudo é preciso que não se utiliza esta questão para tentar eliminar feriados ou datas históricas que devem ser assinaladas no seu dia concreto», acrescentou o líder da CGTP.» Agradecemos que o camarada Carvalho da Silva nos explique que direitos dos trabalhadores são postos em causa por se trabalhar num dia útil como qualquer outro. Já quanto ao facto de esta tolerância de ponto não se justificar, ainda bem que o afirma depois de alguém já ter gritado em plenos pulmões que o rei ia nu! Ficaremos para sempre na dúvida se, na eventualidade de os maçadores economistas terem ficado calados, a CGTP jamais afirmaria que esta tolerância de ponto «simplesmente não se justifica», não é Camarada Silva?

Por fim, Francisco Van Zeller da Confederação das Indústrias Portuguesas (CIP), também se lembrou convenientemente, no próprio dia da ponte, que «É um mau hábito que dá a impressão que o trabalho é um sacrifício. Os países do Norte da Europa são mais severos e arranjaram a solução de encostar os feriados aos sábados ou aos domingos». Claro que o objectivo da CIP será sobretudo poupar o Governo amiguinho e, por isso mesmo, queixa-se mas baixinho e de forma suave.

Resta-me dizer que todas esta reacções foram extremamente comedidas e feitas para não levantar muitas ondas. Ao melhor estilo do Conselheiro Acácio!

O Conselheiro Acácio é uma personagem marcante de O Primo Basílio de Eça de Queirós. Tipifica o formalismo próprio da época, o falso moralismo, o apego às aparências. Amigo do pai de Jorge e padrinho do casamento, gosta de frases feitas e citações morais, mas, na vida privada, lê poemas obscenos de Bocage e mantém como amante a empregada, Adelaide, a qual, por sua vez, o trai com um caixeiro. É um dos tipos mais famosos da galeria queirosiana, e responsável pelos adjectivos "acaciano" e "conselheiral", usados quando se deseja aludir ao falso padrão moral de alguém.