Tour de France 2005 - O fim de uma era

Aí está. Com a vitória no contra-relógio de sábado, Lance Armstrong conquistou a sétima vitória consecutiva no Tour de France. No contra-relógio realizado em Saint-Étienne com 55,5 Km, Lance Armstrong pulverizou a concorrência ao realizar um tempo de 1h 11’46" deixando Jan Ullrich, o segundo classificado do contra-relógio, a 23 segundos e Ivan Basso, segundo da geral e 5º no contra-relógio, a 01' 54". Lance Armstrong percorreu os 55,5 Km a uma velocidade média de 46,4 Km/h. Resta referir que o 3º classificado da geral teve um contra-relógio para esquecer. Para além de duas quedas, uma delas aparatosa, trocou de bicicleta cinco(!) vezes. Resultado, ficou em 77º no contra-relógio a 07' 47" de Armstrong, tendo pedido o 3º lugar da geral e caído para 7º a 11' 33'' de Armstrong. Um contra-relógio verdadeiramente desastroso.
Com a retirada anunciada do heptacampeão começa uma nova era no ciclismo de alta competição. A chegada aos Campos Elísios foi a consagração de um mito, um super-atleta que teve de sofrer para atingir o topo. Apenas três anos antes de conquistar o seu primeiro Tour, em 1999, foi-lhe diagnosticado cancro num testículo, no cérebro e no pulmão, que lhe dava menos de 50 por cento de probabilidade de sobreviver. Lance não só venceu o cancro, como se tornou mais forte, retirando-se da modalidade aos 33 anos, quando ainda poderia continuar a pedalar.
Abandonado pelo pai biológico, Eddie Gunderson, aos dois anos de idade, habituou-se a viver com a mãe Linda, que o viu nascer quando tinha apenas 17 anos. Privando com muitas dificuldades e tentando superar a grande instabilidade emocional da mãe, que se casou quatro vezes, Armstrong não teve uma infância feliz. Começou a sua carreira de atleta no triatlo, mas em 1991 optou pelo ciclismo, sagrando-se campeão americano amador e, dois anos depois, campeão do mundo. Em 1995 ganha a sua primeira etapa no Tour, dedicada de forma sentida ao colega de equipa Fabio Casartelli, que morreu durante a prova.
Em 1996, Lance já era número um mundial e não poderia imaginar que a sua vida iria mudar dramaticamente. Após o diagnóstico de cancro foi sujeito a intensos tratamentos de quimioterapia e recuperou a forma, regressando à competição em 98. Já ao serviço da US Postal, entrou em força no Tour de 1999, na primeira de sete conquistas. Foram muitos os momentos que marcaram a passagem de Armstrong pelas estradas francesas, desde os duelos com Ullrich ou Beloki, até à sombra de Ivan Basso.
Alguns adversários quiseram acusá-lo de utilizar doping, mas nunca isso foi provado, apesar das enormes baterias de testes a que era sujeito constantemente. Nenhum acusou positivo e o americano continuou a ganhar, afirmando o seu estilo de vida: «Não uso, nem nunca usei, drogas que aumentem o rendimento».
Agora que Lance Armstrong se retirou oficialmente, o nome do seu sucessor encerra uma enorme incógnita. É impossível sugerir de forma inequívoca quem será o seu herdeiro. Yaroslav Popovych, seu companheiro de equipa, ganhou o prémio da juventude e é um possível candidato a uma vitória no Tour de 2006. Ivan Basso possui todas as características de um campeão e, ao ser segundo da geral, conseguiu subir um degrau na classificação final em relação ao ano passado em que foi terceiro. Jan Ullrich acalenta o sonho de repetir a vitória de 1997 e 2006 será, provavelmente, o seu último ano como profissional.
Ainda há outros candidatos à coroa de 2006. Leipheimer pode ter perdido o quinto lugar da geral nos últimos metros dos Campos Elísios para Vinokourov, mas há que estar atento a este atleta. Há um outro americano, Floyd Landis , que vai tentar a sua sorte em 2006 e que terminou nos 10 primeiros no primeiro ano que que foi líder de uma equipa. Também não nos podemos esquecer de outras promessas como Francisco Mancebo, o agressivamente competitivo Oscar Pereiro Sio e o estreante deste ano Cadel Evans, um australiano que terminou o Tour de 2005 em oitavo e que parece possuir todas as características necessárias para vencer a mais importante prova de ciclismo do mundo: domínio da alta-montanha e dos contra-relógios.
Resta dar os parabéns a Lance Armstrong e desejar-lhe felicidades na sua nova vida que começou domingo, nos Campos Elísios.

<< Home