23/11/2005

Livros: «Lord of the Flies» de William Golding

Excelente livro onde William Golding arrasa com a teoria da bondade infantil, mostrando como um grupo de crianças abandonadas numa ilha, sem a supervisão de nenhum adulto, vão perdendo a pouco e pouco a noção de sociedade e civilização. Numa luta sem tréguas entre os que pretendem manter uma réstea de civismo e os selvagens que se vão desinibindo cada vez mais, o livro entra numa aterradora espiral de violência que envolve assassinatos, fetiches, histeria colectiva, lutas fratricidas, crueldade, puro terror e a incessante busca do Poder. O mais impressionante é que esta pseudo-sociedade é exclusivamente composta por crianças entre os 6 e os 12 anos. Uma fábula perturbante e intemporal.

21/11/2005

BTT: Travessia das Linhas de Torres

Clicar para ampliarÉpica, é a melhor descrição para a Travessia das Linhas de Torres (organizada pela Cabra Montêz) em que participei no dia 20 de Novembro de 2005. Chovia abundantemente, havia uma enorme quantidade de lama por todo o lado, fazia muito frio. Houve uma altura em que chovia tanto que eu conseguia beber a água que me escorria pela cara baixo. Estivemos quase sempre a passar por dentro de enormes poças de água ou de lama. Ou de lama e de água, numa interminável sucessão de água e lama. Quando era preciso pôr um pé no chão, a lama engolia o pé até logo abaixo do joelho, fazendo depois aquele ruído de sucção quando puxávamos o pé para cima. A lama era tanta que houve descidas em que tínhamos de pedalar para não parar! Se era assim nas descidas, imaginem nas subidas. Aguentei bem os primeiros 30 Km, com frio e muito molhado. Dava para aguentar relativamente bem enquanto nos mantivéssemos em movimento e, sobretudo, a pedalar. O pior foi quando parámos para almoçar. Totalmente molhado, arrefeci imediatamente, fiquei cheio de frio e tremia que nem varas verdes. Tinha partido para esta travessia de calções, manga curta, meias e luvas de verão e um casaco que quando chove muito deixa passar água. Com diriam os brasileiros «ó insensatez»... Achei que o tempo iria melhorar, mas essa vaga e remota probabilidade não se veio a confirmar. Tive tanto frio que parei, com grande pena minha pois estava a gostar muito do percurso e estava a sentir-me fisicamente bem. Enfim, fica para o ano que vem, onde certamente comparecerei à chamada com o equipamento necessário para enfrentar o tempo adverso que deve estar novamente, já que está marcada para Outubro. Gostei da passagem pelas ruínas(?) das Termas dos Cucos e da descida para Torres Vedras. Quanto ao mais, não deu para ver grandes paisagens já que a chuva e o nevoeiro foram uma constante. O track GPS no Google Earth corresponde apenas à parte que eu fiz, ou seja aos primeiros 30 km. Gostei do grupo e conto repetir passeios com eles.

O comentário do Pedro Capelinha (Cabra Montêz), que organizou o passeio, que ilustra de forma soberba as dificuldades sentidas:
«A primeira edição da travessia das Linhas de Torres começou molhada, foi molhada e acabou molhada, num dos mais exigentes percursos realizados pela Cabra Montêz, dada a baixa temperatura, a muita lama, o vento e os desníveis constantes. Durante o reconhecimento geral desta travessia, realizado juntamente com o meu amigo Ricardo, já me tinha apercebido das dificuldades, e ontem tudo se confirmou. Não obstante as condições, foi possível ficar a conhecer uma grande parte da 1ª linha defensiva de Torres Vedras, e sentimos na pele as dificuldades dos soldados franceses no eventual domínio destas paragens. Fica a fotografia possível, dentro de um trilho que se converteu num ribeiro, com um telemóvel encharcado, embaciado e suado...».

15/11/2005

Livros: «As Intermitências da Morte» de José Saramago

«No dia seguinte ninguém morreu», começa assim o novo romance de José Saramago. Finalmente José Saramago volta a escrever um livro de grande qualidade, que apresenta um humor fino e realmente inesperado. Dei comigo a sorrir sozinho, tipo tontinho, com inúmeras situações do livro. Depois do Ensaio Sobre a Cegueira (1995), foi uma longa e penosa travessia do deserto com obras menores, na minha opinião claro, como Todos os Nomes (1997), A Caverna (2000), O Homem Duplicado (2002), Ensaio Sobre a Lucidez (2004) e Don Giovanni ou o dissoluto absolvido (Teatro) (2005). Gostei muito do livro que começa devagar, com um arranque lento, mas que termina de uma forma genial. Neste livro, as subtilezas voam livremente e a música enche o ar com uma densidade opaca e tridimensional. O tema da morte, tão incómodo na sociedade actual, é visto numa luz simples, humana mesmo. A morte (com m minúsculo) sente-se pouco poderosa, triste e, atrevo-me a dizê-lo, com falta de amor. O tema da paixão da morte é invulgar e estranho. Na companhia da fiel gadanha, a ceifeira eterna apresenta os dilemas típicos das personagens de Saramago. Numa metáfora alusiva ao poder da grande música, a morte ajoelha-se perante a partitura de uma das suites para violoncelo solo de Bach. Eu, que já me ajoelhei tantas vezes perante obras primas musicais, percebo o ímpeto incontornável sentido pela morte. Após tantos anos a matar-nos, será que a morte não se tornou um pouco humana? Saramago voltou finalmente a escrever uma obra de grande nível, que eu coloco directamente na galeria daquelas que são para mim as sua obras mais notáveis: Ensaio Sobre a Cegueira, Memorial do Convento, Jangada de Pedra ou O Ano da Morte de Ricardo Reis.

10/11/2005

BTT: Os Trilhos da Serra de Aire

Clicar para ampliarParticipei em mais um passeio da BTTour, desta vez quase sempre no sopé da Serra de Aire. Este passeio tinha cerca de 30 km e Cuidado: Ultraleve em voo rasante... Clicar para ampliarum nível de dificuldade reduzido. Fui incluído no grupo do nível 1, o que para mim foi mau. É o meu eterno dilema, sou demasiado lento para o nível 2 e demasiado rápido para o nível 1. Enfim, de futuro vou tentar acompanhar sempre o Nível 2 na medida do possível. Este passeio até foi relativamente simples quando comparado com outros que já fiz com eles. Havia uma parte do percurso que passava por uma pista de Motocross (acho eu...). Aí, houve alguns artistas que se lançaram nuns saltos para curtir.

Para variar, este passeio tinha uma parte bem trialeira à la BTTour. Acredito que seja mais fácil transpor O Luís a transpor uma parte bem técnica. Clicar para ampliaresta parte com um grupo mais reduzido, já que num grupo grande há sempre muitas paragens que perturbam a progressão em terrenos muito técnicos. No final, devo confessar que senti a falta da camaradagem do pessoal do grupo do Nível 2 que me perguntaram porque raio tinha ido com o Nível 1. Fico sempre com um peso na consciência pois acho que os atraso demasiado. Para não variar, este passeio contou com a habitual excelente organização da BTTour.