30/12/2005

Livros: «O Processo» de Franz Kafka

Este livro integra-se na corrente do surrealismo e tem uma força e uma verosimilhança verdadeiramente preocupantes. Conta a história de Joseph K. (o apelido nunca é revelado ao longo do livro) que é acusado num determinado processo. Este processo move-se por meandros obscuros sem nunca ser revelado a Joseph K. aquilo de que o acusam, quem o acusa, nem mesmo qual é o andamento do processo. Num mundo verdadeiramente onírico, Joseph K. vagueia cada vez mais perdido sentindo-se julgado sem julgamento, acusado sem acusação, condenado sem sentença. A degradação que a pressão psicológica do processo desencadeia nele é notória e ficamos sem perceber se ele tem cada vez mais alucinações ou se a teia de uma sociedade perversa, asfixiante e impositiva o enreda cada vez mais a caminho da sua morte. Joseph K. sofre uma morte de cão, sem julgamento, sem condenação, na rua, às mãos de uns quaisquer algozes enviados por um eventual tribunal que nunca o quis ouvir e que o condenou sem apresentar nenhuma prova da sua culpa. Tendo em conta o estado da justiça em Portugal, não consegui deixar de estabelecer alguns paralelos com a triste situação nacional. Por exemplo, no que toca à falta de condições dos tribunais. No livro, há secções do tribunal espalhadas pela cidade e que alugam partes de casas particulares, para a realização de pseudo-sessões de julgamento ou que estão instaladas em forros de telhado abafados e sem condições nenhumas de trabalho. Soa a familiar?

Franz Kafka nasceu em Praga em 3 de Julho de 1883. Judeu, é oriundo da antiga província da Boémia do Império Austo-Húngaro. Kafka escreveu sempre em alemão. Formou-se em Direito em 1906 na Universidade de Karlov em Praga. Foi certamente graças a esta formação jurídica que conseguiu criticar de uma forma tão contundente o sistema judicial da época. Tal como muito outros intelectuais da época, como, por exemplo, Flaubert ou Beethoven, simpatizava com Napoleão. Embora seja corrente que Kafka sofreu de depressão clínica e ansiedade social ao longo da maior parte da sua vida, denotava uma saúde física verdadeiramente frágil já que sofreria de enxaquecas, insónias e prisão de ventre crónicas. Tentava combater tudo isto com duvidosos tratamentos naturopáticos como, por exemplo, uma dieta vegetariana ou o consumo de enormes quantidades de leite não pasteurizado, o que terá possivelmente contribuído para que tivesse contraído tuberculose.

Estava a viver em Berlim há pouco tempo quando a tuberculose piorou e teve de regressar a Praga, apenas para seguir apressadamente para um sanatório em Viena onde viria a morrer no dia 3 de Junho de 1924, aparentemente de inanição. A sua doença tornara-lhe impossível engolir e dado que os tratamentos intravenosos ainda não haviam sido desenvolvidos, não havia forma de o alimentar. Esta situação é muito semelhante à da personagem Gregor da «Metamorfose». Foi enterrado em Praga, no cemitério judeu, no dia 11 de Junho de 1924. A maior parte da sua obra foi publicada postumamente. Aliá, o Capítulo VIII de «O Processo» nunca chegou a ser concluído.

16/12/2005

Política: A Política dos Aldrabões

Ainda há muita gente neste país que vive numa estranha ilusão no que concerne aos políticos. Não há nada que enganar. Eles são mesmo aldrabões, roubam despudoradamente o que é do Estado (logo, o que é nosso) e são artisticamente vigaristas, demonstrando não terem um pingo de vergonha nos seus espíritos decadentes em corpos bem sãos, de tão bem alimentados à nossa custa. Já aqui falei no infame subsídio de reintegração atribuído pela Assembleia da República a quem deixa de exercer funções como deputado e regressa à vida civil. Agora vou falar-vos do verdadeiro motivo pelo qual Manuel Alegre, mas sobretudo, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã dizem que hão-de ir até às urnas nestas eleições e, simultaneamente, o motivo pelo qual o PS ficou tão irritado com a aparentemente casmurrice infantil de Alegre em disputar as eleições até ao fim.

Preparem-se...

Diz a Lei 19/2003, no seu artigo 17, o seguinte:


Subvenção pública para as campanhas eleitorais
1 - Os partidos políticos que apresentem candidaturas às eleições para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu, para as Assembleias Legislativas Regionais e para as autarquias locais, bem como os grupos de cidadãos eleitores dos órgãos das autarquias locais e os candidatos às eleições para Presidente da República, têm direito a uma subvenção estatal para a cobertura das despesas das campanhas eleitorais, nos termos previstos nos números seguintes.

2 - Têm direito à subvenção os partidos que concorram ao Parlamento Europeu ou, no mínimo, a 51% dos lugares sujeitos a sufrágio para a Assembleia da República ou para as Assembleias Legislativas Regionais e que obtenham representação, bem como os candidatos à Presidência da República que obtenham pelo menos 5% dos votos.

(…)

4 - A subvenção é de valor total equivalente a 20.000, 10.000 e 4.000 salários mínimos mensais nacionais, valendo o 1.º montante para as eleições para a Assembleia da República, o 2.º para as eleições para a Presidência da República e para o Parlamento Europeu e o 3.º para as eleições para as Assembleias Legislativas Regionais.
Primeira conclusão: qualquer candidato à Presidência da República que tenha mais de 5% de votos expressos pode beneficiar desta subvenção cujo montante total é igual a € 385,90 (valor actual do Salário Mínimo Nacional) x 10.000, ou seja uns belos € 3.859.000,00 (quase quatro milhões de euros).

E como é que os políticos que fizeram a lei decidiram que se dividia este bolo apetitoso? Da seguinte forma:

Artigo 18.º
Repartição da subvenção
1 - A repartição da subvenção é feita nos seguintes termos: 20% são igualmente distribuídos pelos partidos e candidatos que preencham os requisitos do n.º 2 do artigo anterior e os restantes 80% são distribuídos na proporção dos resultados eleitorais obtidos.

(…)

4 - A subvenção não pode, em qualquer caso, ultrapassar o valor das despesas orçamentadas e efectivamente realizadas, deduzido do montante contabilizado como proveniente de acções de angariação de fundos.
5 - O excedente resultante da aplicação do disposto no número anterior é repartido
proporcionalmente pelas candidaturas em que aquela situação não ocorra.


Vamos passar a um exemplo concreto. Imaginemos que os resultados das eleições eram os seguintes: Cavaco (55%), Soares (20%), Alegre (15%), Jerónimo (5%) e Louçã (5%). Neste caso as contas eram assim:
20% dos € 3.859.000,00 eram divididos pelos 5, ou seja € 771.800 a dividir por 5 = € 154.360 a cada um. Nada mau, 30.000 contitos por participar numa eleições…

Os restantes 80% eram divididos da seguinte forma (somando já o valor da primeira parcela):

Cavaco - € 1.697.960 + € 154.360 = € 1.698.114
Soares - € 617.440 + € 154.360 = € 711.800
Alegre = € 463.080 + € 154.360 = € 617.440
Jerónimo = 154.360 + € 154.360 = € 308.720
Louçã = € 154.360 + € 154.360 = € 308.720

Francamente não percebo o que o ponto 5 do artigo quer dizer e até tenho medo de descobrir...

Conclusões: A aparente teimosia de Jerónimo e Louçã tem, no fundo, uma razão financeira de peso. Sempre são mais de 300.000 euros que entram para os cofres dos seus partidos. A aparente irritação do PS com Manuel Alegre, bem como os repetidos apelos à desistência dos outros candidatos da esquerda também têm uma motivação bem financeira. Basta somar-se as subvenções dos candidatos de esquerda todos juntos para se perceber o dinheirão que o PS está a perder. Interessante foi o ar pungente com que Francisco Louçã disse a José Alberto Carvalho num debate, que lhe fez esta pergunta muito pela rama, que se sentia insultado pela questão colocada. Insultados devíamos sentir-nos todos nós com os quase quatro milhões de euros que vão custar as Presidenciais, só em subvenções. Por fim, Louçã recordava com um ar de ofendido celestial que a lei diz que estas subvenções se destinam exclusivamente a pagar as despesas com a campanha eleitoral.

Todos sabemos muito bem como em Portugal se controlam as contas a apresentar para que o resultado seja exactamente o pretendido.

14/12/2005

Curiosidades: Chato Como a Potassa

Qual é a origem da expressão «chato como a potassa» tão comum entre nós? Tem origem nas antigas lavadeiras que passavam o dia a lavar a roupa dos seus clientes. Ontem, como hoje, as mãos de quem lavava sofriam terríveis agruras. Roupas grossas ou muito sujas exigiam ser esfregadas por longos períodos de tempo, rasgando as cutículas das unhas, fazendo nascer espigas. A potassa utilizada no fabrico do sabão irritava muito a pele e os problemas surgiam. Os dedos começavam a inchar, infectavam em redor da unha, supuravam. Caía a pele dos dedos e a unha apodrecia, caía. O terrível panarício periungueal (popularmente denomindado «unheiro») continuava a resistir a tudo, produzindo vergões e ínguas, parentes próximos da Erisipela, uma infecção superficial da pele causada por uma bactéria. Durante todo o sofrimento, sem deixar de lavar, a lavadeira experimentava tudo quanto estivesse ao seu alcance. Mandava rezar. Punha emplastros para amadurecer o pus. Manjericão, cabeça de quiabo pisado com sabão virgem, papa de farinha crua com azeite, hortelã pisada, mastruço (que tem o formato de um pénis) pisado juntamente com um pouco de alho, sumo de urtiga, cujo nome vem do latim «urere» = «arder», com pó de arroz eram as mezinhas mais usadas. Para queimar o unheiro, evitando que voltasse, recorriam a besuntar com azeite fervido com alho, ou fezes humanas (de preferência de menino pagão). Apalpar uma galinha várias vezes ao dia e expor o dedo ao escaldo de qualquer fervura estavam entre os tratamentos considerados infalíveis. A necessidade constante de estar com as mão na água dificultava muito a cura. Mas as lavadeiras não podiam desanimar e viviam a sua vida torturada de pobres almas, prisioneiras das primitivas técnicas de lavar roupa. Abençoada ciência que fazes o mundo avançar...