09/03/2004

Correr para o sucesso




Nunca fui muito dedicado à prática do desporto. Foi, de facto, mais um dos muitos erros que percebo que cometi ao longo minha vida. No entanto, mais vale tarde do que nunca. Depois de começar a dedicar-me ao BTT, que continuo a praticar com inegável prazer, resolvi que não era muito normal não conseguir correr mais de dois minutos sem ficar absolutamente ofegante e quase a cair para o lado. Decidido a resolver este problema, fui falando com algumas pessoas durante o período em que comecei a tomar balanço para me atirar com unhas e dentes à resolução deste fútil mistério que me atormentava. Falei com o meu cunhado e com colegas dele, todos licenciados pela Faculdade de Motricidade Humana, falei com o Nando, corredor amador, enfim, fui falando com várias pessoas. O facto é que todos me diziam que, salvo um problema de foro clínico, não havia motivo nenhum aparente para que não conseguisse fazer algo de tão natural no homem: correr. Decidido a resolver o problema, comprei um livro (sim, eu sei que a solução parece ser um pouco repetitiva mas é de facto nos livros que tenho encontrado a resposta a muitas das minhas dúvidas/problemas) para iniciados na arte de correr. Li-o de fio a pavio (mais de 700 páginas!), estudei os planos de treino, as questões fisiológicas, os sábios conselhos do autor (Bob Glover) e foi armado deste fundado conhecimento que tentei.

Tentei e não consegui correr. Apesar de perceber a teoria toda, a prática derrotava-me continuando a ficar de rastos com uma miserável corridinha de 3 minutos. Confesso que este revés me desanimou e deixei de lado a corrida por umas semanas, voltando a dedicar-me ao BTT. No entanto, sempre que trepava uma subida daquelas mais a doer da Serra da Arrábida, questionava-me como diabo seria possível conseguir fazer um inegável esforço físico sobre a bicicleta e ser incapaz de dar uma corridinha sem ficar ofegante e quase a cair para o lado.

Passadas umas semanas, voltei à carga, reli umas passagens do livro, tentei perceber um pouco melhor a técnica de corrida e voltei a tentar um dos planos de treino do tipo “Como meter um estúpido a correr em três lições”: na 1ª semana: correr 1 minuto, andar 2, repetir o ciclo 6 vezes; na 2ª semana: correr 2 minutos, andar 1, repetir o ciclo 6 vezes, etc. De início, os resultados continuaram a não ser muito animadores. Mas insisti, ficando de rastos frequentemente, tentando sempre escalpelizar a técnica da corrida, da respiração, da passada, da forma de colocar os pés no chão sempre com o calcanhar primeiro, isolar os erros, perceber onde continuava a falhar. E de repente, fez-se luz. Os anjos e os querubins cantaram. Soaram os arautos da fortuna: consegui correr 30 minutos consecutivos sem cair para o lado. Lá fui treinando, aumentando gradualmente a distância/tempo de corrida. Só para dar uma ideia da maluqueira desta história, este fim-de-semana corri 19,8 km... seguidinhos, sem parar. Não imaginam como isto para mim é um marco histórico e absolutamente espantoso. Eu sei, parece um pouco inútil mas a vida faz-se destes pequenos nadas sem importância nenhuma.

Como corolário desta história, recentemente fiz algo que há um ano atrás julgaria absolutamente impossível: inscrevi-me para a Meia Maratona de Lisboa. São 21.097 metros que vou tentar correr sem ultrapassar em muito as duas horas, sempre para mais e nunca para menos. É já no dia 28 de Março. Até lá, há que treinar muito.