Golpe de teatro
O Zé Manel foi convidado para Presidente da Comissão Europeia e aceitou. Isso quer dizer que, basicamente, vai abandonar a meio o projecto de Governo de Portugal por si encabeçado, numa demonstração preocupante de irresponsabilidade política. Depois de dois anos como sofrível primeiro-ministro de Portugal, sendo certo que o seu governo teve de tomar decisões muito difíceis para limpar o país dos escolhos do naufrágio socialista, parece-me irreal que se abandone um cargo tão importante como o da gestão dos destinos da nação perante este inqualificável convite da Comissão Europeia.
Inqualificável porque é difícil entender a forma despudorada como se convida para um cargo institucional um primeiro-ministro no activo que carrega sob os seus ombros a difícil tarefa da recuperação económica de um país que, finalmente, vislumbra pequeníssimos sinais de saída da crise em que se viu mergulhado. Na minha opinião, jogadas deste calibre desprestigiam a Comissão Europeia e demonstram claramente que lhes falta o mais básico senso comum em termos políticos.
Enfim, lá diz a máxima que “só faz falta quem cá está” e o Zé Manel demonstrou quais são as suas prioridades.
Portugal não está, claramente, no topo da lista.
Mal comparando é como a situação de José Camacho no Benfica. Depois de recuperar um Benfica moribundo, que é actualmente um clube menor e sem nenhuma dimensão futebolística senão a histórica, mesmo que com uma enorme ajuda do Sporting que fez o favor de perder os últimos quatro(!) jogos do campeonato, quando lhe acenaram com um cargo no poderoso e histórico Real Madrid passou-lhe logo todo e qualquer resquício de benfiquismo que tivesse no corpinho abalando velozmente para Madrid sem olhar para trás nem que fosse para se despedir.
A diferença é que os primeiros-ministros elegem-se e ficam por lá uma legislatura completa assumindo um compromisso político para com o eleitorado e os treinadores contratam-se e despedem-se como qualquer outro tipo de funcionário.
Para variar, o PS, qual virgem ofendida, reclama de imediato novas eleições. A esta posição não será alheio o facto de estar claramente à frente nas sondagens.
No entanto, mais uma vez demonstra ser um partido sem memória. Depois de Jorge Sampaio ter abandonado a Câmara Municipal de Lisboa para se candidatar a Presidente da República contra Cavaco Silva, não me recordo de o PS ter defendido que teria de haver novas eleições para legitimar a ascensão de João Soares a presidente da mais importante autarquia do país. João Soares havia sido eleito deputado para o parlamento europeu e regressou para assumir naturalmente a sucessão à presidência da câmara tendo o PS defendido veementemente essa situação. Ora, por que estranho motivo o PS passou a considerar ilegítimo que o partido que ganhou as legislativas de 2002 nomeie um novo primeiro-ministro tal como eles fizeram na Câmara Municipal de Lisboa em 1997? A falta de memória dos socialistas é francamente preocupante... Por outro lado, o Bloco de Esquerda também parece andar baralhado. Quando concorreu às eleições legislativas, concorreu com Francisco Louçã e Luís Fazenda. Não me lembro de que alguém tenha votado directamente em Ana Drago, Joana Amaral Dias, João Teixeira Lopes, Fernando Rosas ou em Alda de Sousa. No entanto, sempre que lhes dá na veneta lá vão trocando de cadeiras em São Bento a seu bel-prazer.
Guterres, de má memória, abandonou o cargo a grande velocidade depois de se ter apercebido de que arrastara o país perigosamente para a beira do desastre económico. O Zé Manel abandona o cargo convencido de que é prestigiante para Portugal ter um seu cidadão como Presidente da Comissão Europeia.
Para o Zé Manel é seguramente prestigiante.
Para Portugal, francamente, não estou bem a ver as vantagens.
Resta saber quem vai substituir o Zé Manel e rezar para que não deite por terra todo o difícil trabalho de recuperação que teve início há dois anos atrás.

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