Uma vitória de Pirro
Nas eleições Europeias o PS venceu de forma clara e inequívoca. No entanto, se procedermos a uma análise detalhada dos resultados, poderemos concluir que o estrondoso sucesso apregoado pelo PS e pela imprensa em geral, sempre pronta a agradar aos vencedores, não passa de uma Vitória de Pirro.
Em 1999 o PS teve um total de 1.493.146 votos, em 2004 teve 1.511.102. A diferença cifra-se no ganho de uns miseráveis 17.956 votos. Já no que concerne ao PSD/CDS-PP a diferença de votos foi mais preocupante. Em 1999 tinha tido um total de 1.361.595 votos e em 2004 tiveram um total de 1.129.065 votos, sendo a diferença negativa de 232.530 votos. Uma perda significativa.
Ora, não é preciso ser um génio da matemática para perceber que a esmagadora maioria dos votos que a coligação PSD/CDS-PP perdeu não foi parar ao PS. É por isso totalmente abusivo o PS armar-se em esmagador vitorioso da noite eleitoral. Não me parece que obter cerca de 18.000 votos adicionais seja um grande feito, sobretudo sabendo que o principal adversário perdeu mais de 230.000 votos. Parece-me óbvio que dos 212.000 votos que sobram, quem não quis votar no PSD/CDS-PP também não teve confiança suficiente no PS para votar nos seus candidatos.
A coligação CDU/PEV tinha conseguido 357.671 votos em 1999 e conseguiu 308.858 votos em 2004. Ou seja, esta coligação também perdeu um total de 48.813 votos. Apesar desta perda de quase 15%, o discurso dos comunistas foi absolutamente vitorioso, algo a que já estamos habituados. Felizmente, a camarada Ilda vai poder levar consigo um camarada companheiro para apoiar a sua tendência para a prosa interminável.
Mas então, se o PS ganhou 18.000 votos e o PSD/CDS-PP e a CDU perderam um total de 281.343 votos, para onde foram os votos?
É aqui que entra em cena o maior vencedor da noite. O BE teve um total de 61.920 votos em 1999 tendo conseguido 167.032 votos em 2004! É um ganho de 105.112 votos! Percentualmente são 270%! Este partido tem uma forte presença junto do eleitorado urbano jovem e, provavelmente, junto dos novos eleitores que, sendo a primeira vez que iam exercer o seu direito de voto, compreensivelmente não alinharam pela abtenção geral do país. Graças a esta performance, conseguiram eleger um deputado europeu pela primeira vez. Não há como ser um partido da moda que pouco faz e muito diz para embeiçar as massas.
Os restantes 158.275 votos devem ter-se perdido no aumento da abstenção.
Conclusão, o PS armou-se em retumbante vencedor da noite eleitoral mas conseguiu exactamente os mesmíssimos 12 deputados das eleições anteriores e ganhou a confiança de mais 18.000 eleitores num universo de 3.259.819 votantes. É um aumento de 0,6%!
O PSD, que tinha conseguido 9 deputados em 1999, foi o grande perdedor já que conseguiu apenas 7, tendo o CDS-PP sido um claro vencedor ao eleger os mesmos 2 de 1999. Por aqui se vê quem lucrou verdadeiramente com a coligação PSD/CDS-PP.
A CDU elegeu os mesmos 2 deputados e o BE conseguiu eleger 1 deputado que lhe havia escapado em 1999 e quase triplicou o número de votos expressos.
Finalmente, convém recordar que em 1999 havia um total de 25 deputados a eleger por Portugal e que em 2004 esse número foi reduzido para 24.
Gostaria que alguém me explicasse como é que se pode concluir a partir destes resultados que o PS teve uma estrondosa vitória eleitoral. A capacidade para a matemática do Guterres parece ter contaminado todo o aparelho Socialista, bem como a comunicação social.
Pirro foi rei de Épiro e da Macedónia. Invadiu o Império Romano pela Heracleia no Norte de Itália em 281 a.c. com um exército de 25.000 homens de infantaria, 3.000 de cavalaria e 20 elefantes, na época considerado poderosíssimo. No entanto, a vitória alcançada contra as forças romanas foi conseguida a grande custo e com enormes perdas. O seu exército foi de tal modo destroçado que Pirro teve mesmo de se retirar do Império Romano.
Quando felicitado pela vitória, afirmou “Outra vitória como esta e voltarei para Épiro sem um único homem” que deu origem à expressão Vitória de Pirro para descrever uma falsa vitória.

<< Home