O camaleão rosa e a "ponte" da discórdia
Durante este dois últimos dias, assistimos a uma rábula que ilustra bem os politiqueiros que pululam por este país. Os políticos portugueses já se aperceberam há algum tempo de que não conseguem mobilizar as massas por aí além. Na realidade, estão genuinamente preocupados com o assunto. Na minha opinião, há vários motivos para este óbvio alheamento da realidade eleitoral por parte dos eleitores. Por um lado, a consolidação efectiva da democracia tem este efeito pernicioso. Por outro, o descrédito que nutrimos pela classe política atingiu níveis recorde.
No entanto, este descrédito não surgiu do nada. Volto a afirmar que acho francamente difícil uma pessoa actualmente reger-se por uma ideologia única de forma cega e militante. Seja ela qual for. Na generalidade, todas as ideologias políticas têm falhas graves, muito graves ou inaceitáveis. Nenhuma está isenta destes problemas.
As extremas, esquerda e direita, são basicamente infelizes, curtas de ideias e desagradáveis.
Parece difícil ser-se um comunista militante sabendo que todos os regimes comunistas que existiram ou ainda existem no mundo são autoritários, perseguem as pessoas pelas suas ideias ou reduzem-nas a perigosas nulidades.
Infelizmente, o socialismo tal como foi concebido por Marx e Engels era realmente lindo no papel mas revelou-se muito feio nas mãos de quem o implementou por esse mundo fora.
A social-democracia do norte da Europa sempre era um sistema mais equilibrado e, juntamente com o capitalismo, com todos os seus enormes defeitos, parece ser o sistema mais aceitável.
Não gosto de políticos, não gosto de política, não gosto de partidos políticos. Não gosto porque se hoje dizem algo que nos agrada, amanhã sei que dirão algo que nos desagradará profundamente. Se hoje fazem algo correcto, amanhã farão algo extremamente incorrecto. Conclusão, para mim os partidos estão actualmente mais alicerçados nas pessoas que os comandam do que nunca.
Vem esta prosa toda a propósito de uma rábula que surgiu nestes últimos dias por causa de uma ponte. O António Costa do PS, disse ontem que se o governo PSD/PP desse a ponte do dia 10 de Junho, o faria com o intuito de fomentar a abstenção nas eleições Europeias desse fim-de-semana. Notem que o governo nunca falou em dar ponte nenhuma. Aliás, no malfadado tempo do Guterres, que felizmente já lá vai, havia uma teoria vigente no PS sobre “direitos adquiridos no que concerne a pontes”, Guterres dixit. Bem sei que na altura, Guterres tremia que nem varas verdes ao recordar o célebre episódio da ponte do Carnaval que se havia passado em 1993 com Cavaco Silva. Cavaco Silva não deu nesse ano a habitual ponte resultante da Terça-feira de Carnaval e caiu o Carmo e a Trindade. Ele foi jornais, analistas políticos e a oposição em peso a dar-lhe na cabeça e um trambolhão nas sondagens verdadeiramente notório. Ora o camarada Guterres, que tinha um medo que se pelava desse tipo de confrontos, deu a ponte antes das eleições Europeias de 13 de Junho de 1999 e nem piou.
Pois agora, o governo nem chegou a falar em dar ou não a ponte do 10 de Junho antes das eleições. Numa notável jogada de antecipação, António Costa, esse verdadeiro arrivista político das fileiras do PS, veio dizer que o Governo não devia dar a hipotética ponte porque estaria a fomentar a abstenção para prejudicar os resultados eleitorais da oposição.
Ora esta prosa enferma de vários erros e incorrecções. A saber:
1. O governo nunca disse que ia dar a ponte. O PS afirma saber de fonte segura (naturalmente...) que o governo se preparava, às escondidinhas, para dar a ponte.
2. Historicamente, a abstenção em Portugal favoreceu sempre a esquerda e nunca a direita.
3. O próprio PS em 1999 deu a ponte antes das Europeias da época. Na altura pareceu-lhe certo, agora já não parece. Desse governo, fazia parte um inútil e incompetente Ministro da Justiça chamado... António Costa. Felizmente para ele, a actual Ministra da Justiça, Celeste Cardona, está quase a roubar-lhe o ceptro de Campeão da Incompetência num governo da nação.
Ora ontem, o Durão Barroso, que é tão parvinho para uma coisas, disse, e quanto a mim muito bem, que não só nunca tal coisa lhe havia passado pela cabeça, como dizia desde já que não estava aprovada ponte nenhuma para esse fim-de-semana. Ponto final na conversa. Vinte valores para esta actuação do nosso habitualmente titubeante primeiro-ministro. Basicamente, os camaradas socialistas ficaram a zurrar para os céus e, como bem sabemos, as vozes de burro não chegam lá acima.
Mas esperem, ainda falta a pièce de résistance!
Ora hoje, o inefável António Costa veio afirmar que, e passo a citar, «Não é grave que o Governo tome essa decisão. É grave que as pessoas não votem. Por isso dizemos: as pessoas que gozem legitimamente a oportunidade que têm de descansar, mas não se esqueçam que há eleições. Gozem o fim-de-semana, mas votem».
Portanto, «Eles eram maus e iam dar uma ponte às escondidas para nos lixar, mas como são muito maquiavélicos mudaram de ideias também às escondidas. Ha-Ha!! Afinal não há ponte mas isso é bom, em 1999 nós dávamos as pontes mas eles como são mais que maus não as podem dar! Ai não dão? Então está bem, fiquem lá com a vossa ponte, mas deixem as pessoas ir votar no gozo pleno do vosso fim-de-semana.»
Confuso? Ponham confuso nisso!
Verdade seja dita que este governo é muito fraquinho.
No entanto, felizmente tem tido uma ajuda fantástica para governar graças à actuação miserável do PS, o maior partido da oposição.
Também, não podemos esperar muito de um partido que escolheu como cabeça de lista para as eleições Europeias o Prof. Sousa Franco. Este ilustre senhor, foi Ministro das Finanças do primeiro governo de Guterres em 1995. Dono de um temperamento verdadeiramente contra-indicado para a política, é um homem irascível e dotado de um feitio insuportável, saiu do governo de Guterres furibundo, bateu com a porta com muita força e afirmou na altura que aquele governo era, e passo a citar o senhor professor, “o pior governo de Portugal desde o tempo de D. Maria I”.
D. Maria I, cujo cognome inicial foi "A Piedosa", era filha de D. José I e de Dona Maria Ana Vitória de Bourbon e foi rainha de Portugal entre 1779 e 1799, sendo que durante o período de 1792 até 1799 a regência esteve a cargo do futuro rei D. João VI em virtude da grave doença da mãe. Detestava Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, desde o tempo do processo dos Távora durante o qual havia perseguido inúmeros amigos próximos da família real. Ficou a odiá-lo ainda mais quando este tentou que abdicasse em favor do seu próprio primogénito, D. José, aquando da morte do pai. Profundamente religiosa, apressou-se a restaurar a influência e poder dos Jesuítas. Foi a grande instigadora de um vasto processo contra o agora caído em desgraça Marquês de Pombal e retirou-lhe todos os cargos. Dona Maria nunca perdoou ao ministro nascido plebeu a perseguição movida à família Távora, aos Jesuítas, que eram os históricos ministros religiosos e confessores dos nobres, e à alta nobreza em geral. Inicialmente, a rainha pretendia uma destruição total e inequívoca de Sebastião José. No entanto, ao longo do processo começou a aperceber-se de que o nome de seu pai seria arrastado pela lama como um rei fraco e dominado pela influência do seu todo-poderoso ministro. Além disso, se tinha havido perseguição aos Távora e à alta nobreza, essa perseguição havia sido patrocinada por seu pai na sequência de uma tentativa de regicídio e ir contra todos os seus decretos régios agora, seria desautorizá-lo depois de morto. Confrontada com a necessidade de preservar o bom nome de D. José I e de não o contrariar depois de falecido, a rainha viu-se forçada, ao arrepio da vontade influente da alta nobreza, dos recém-revigorados Jesuítas e da sua própria vontade, a condenar Sebastião José de forma bem mais comedida do que todos teriam gostado, tendo inclusive Sebastião José conservado os seus honorários enquanto Ministro de Estado até à sua morte. Apesar disso, a rainha ordenou que o Marquês se resguardasse sempre a uma distância de pelo menos 20 milhas de si. Se estivesse previsto que ela passasse em viagem por uma das suas propriedades, Sebastião José era compelido, por decreto régio, a afastar-se da sua própria casa. D. Maria I terá alegadamente sofrido de ataques de raiva só de ouvir pronunciar o nome do antigo Ministro de Estado de seu pai.
O Governo de D. Maria I fica conhecido como A Viradeira, pois ela adopta inúmeras medidas que contrariavam as rígidas medidas pombalinas. Ela vetou e propôs medidas contrárias para, por exemplo, beneficiar a Inglaterra, que tanto trabalho dera a Sebastião José contrariar. Socialmente teve inúmeras realizações de mérito como, por exemplo, a criação da Real Academia de Ciências, do Colégio Militar (a pedido de seu filho D. José), da instituição da Lotaria Nacional ou da criação do Colégio Casa Pia. Durante o seu reinado começou a construir-se a Basílica da Estrela. Foi oficialmente declarada louca em 1792, tendo passado à história com o cognome “A Louca”.
Voltando aos tempos modernos, se este grupo de ilustres socialistas era tão mau governo, como pode o Prof. Sousa Franco juntar-se a esta pandilha para ser eleito e conviver com eles no Parlamento Europeu? Caramba, que falta de espinha...

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