14/03/2004

Descubra as diferenças




No dia 11 de Março, a Al Qaeda matou 201 pessoas e feriu mais de um milhar em Madrid. Demonstrando aquilo de que é feita (por homens e mulheres sem escrúpulos nem dignidade de luta), a Al Qaeda só conseguiu provar até à exaustão que não tem alvos definidos. Que os alvos somos todos nós.
Tristemente, os muçulmanos tentaram encaixar no seu mundo pré-medieval em 100 anos o que levou ao mundo ocidental 700 anos a construir, com previsíveis maus resultados. As assimetrias são enormes, o choque de culturas também e conseguiu criar-se duas classes sociais, os muçulmanos-muçulmanos e os muçulmanos-ocidentalizados, antagonistas históricos a partilhar uma mesma sociedade. Assim chegamos ao status quo actual. Os líderes políticos do mundo ocidental são os americanos e, graças à sua estupidez inata, conseguiram durante anos andar a alimentar essa corja de muçulmanos-ocidentalizados que se dedicava a explorar os seus próprios compatriotas, gerando grandes ódios e, sobretudo, grandes inimigos. É precisamente dessa cáfila de bandidos que emerge Bin Laden. Ele sabe que depois do 11 de Setembro os americanos estão com as garras de fora e que têm tão poucos escrúpulos como a sua própria organização. Conhecem-se demasiado bem de outras negociatas que fizeram juntos. Sendo difícil incomodar os americanos, então vamos castigar os seus acólitos para aprenderem a ser mais criteriosos com as escolhas que fazem.

É por estes tortuosos caminhos que chegamos aos comboios suburbanos de Madrid na manhã do dia 11 de Março de 2004. Pela estação de Atocha passam diariamente dezenas de milhar de pessoas. Nos últimos tempos, algumas dessas pessoas, ao abrigo do anonimato dos simples trabalhadores e estudantes madrilenos, tomavam notas, faziam esquemas, estudavam opções. Faziam planos de morte escondidos pela névoa do stress e da pressa de quem trabalha e, indiferentes ao buliço matinal de Atocha, acotovelaram-se com outros passageiros, deixaram mochilas fúnebres esquecidas nos vagões e fizeram uma chamada telefónica para o Inferno.

Infelizmente, a única coisa que eles andam a fazer é a matar cobardemente os que nada têm a ver com estas guerrinhas. Como não têm a coragem (nem a inteligência, veja-se como, felizmente, os atentados em Madrid tiveram enormes falhanços) necessária para matar quem provoca todos estes problemas (não consta que tentem fazer algo verdadeiramente relacionado com os seus problemas como, por exemplo, matar o Bush) andam a matar quem está mais desprotegido. É como se o Bush resolvesse de mote próprio, sem o acordo dos tradicionais aliados, invadir nações soberanas em nome da sua paz mundial. Infelizmente, foi isso mesmo que aconteceu e a triste realidade é que há muito poucas diferenças entre uns e outros. Só é pena é no meio estarmos todos nós. Já dizia Camões "Que um fraco Rei faz fraca a forte gente". Já não estamos no século XIV, nem tão pouco falamos de D. Fernando I, o rei fraco que insistiu em casar com a divorciada e manipuladora Leonor Teles. Estamos em pleno século XXI e falamos do líder tácito do mundo ocidental, o fraco George W. Bush cujo QI rivaliza apenas com o vegetal que lhe dá nome. Será John Kerry o D. João I de que o mundo tanto precisa neste momento? Será que o povo, tal como em 1383-85 se vai revoltar nas urnas, de forma democrática, e fazer tudo por eleger alguém que verdadeiramente os defenda, alguém que aceite a ordem natural das coisas na paz e viva no respeito pelo próximo?

Alguém que respeite o silêncio ensurdecedor dos mortos?

Alguém que não se esqueça de que naqueles comboios viajávamos todos nós.

Alguém que se lembre de que há sempre um comboio a partir de uma estação...