29/04/2004

Praga Caput Regni




Finalmente, lá conseguimos visitar Praga, essa cidade mítica que envolve o nome de Mozart. É de facto uma cidade muito, mas mesmo muito bonita. Vê-se que já teve uma grandeza que perdeu, mas estou certo de que estão a trabalhar para conquistá-la novamente e de que conseguirão fazê-lo. Arquitectonicamente é uma cidade avassaladora. Os edifícios em Arte Nova são formidáveis e a cada rua há um novo edifício de nos deixar de boca aberta. Os checos são muito afáveis e o custo de vida é ligeiramente inferior ao de Portugal. O centro de histórico de Praga está formidavelmente bem conservado, sobretudo se tivermos em linha de conta as brutais cheias de 2002 que fizeram transbordar o Vlatva para níveis de suster a respiração. O facto é que não se dá por nada, não há marcas de danos nenhuns e se não fosse pelas tabuletas a indicar o nível a que as águas chegaram, nem nos apercebíamos do facto. Fez-me lembrar a nossa capacidade para recuperar, por exemplo, o Chiado...

O centro da cidade e parte dos arredores são de facto avassaladores, desde a praça da Cidade Velha com o fantástico relógio astronómico, à ponte Carlos IV com o seu São Nepumoceno de boa fortuna, ao Castelo de Praga, ao Mosteiro de Strahov, ao Teatro dos Estados, ao Rudolfinium, à Casa Municipal, à Praça Wenceslau, enfim um nunca acabar de monumentos magníficos. O sistema de transporte públicos é fantástico. Tanto o metro como, sobretudo, os eléctricos são de uma eficácia formidável. Trata-se, provavelmente, do melhor legado dos comunistas.

A oferta cultural de Praga é absolutamente arrasadora. Todos o dias há mais de uma mão-cheia de concertos de música clássica na cidade em diversos teatros e igrejas, uma ópera por dia e várias peças de teatro (em checo, pois claro). Durante a nossa estadia, assistimos a um récita da Carmen de Bizet pela Companhia de Ópera de Praga que foi um fiasco monumental já que os tenores eram terríveis e as sopranos não lhes ficavam atrás, a uma récita do Requiem de Mozart (claro!) de primeiríssimo nível com um barítono absolutamente formidável e, por último, ao D. Giovanni de Mozart em teatro de marionetas que recorreu a uma gravação muito boa com excelentres solistas como Bryn Terfel, entre outros. As marionetas de Praga são uma referência no género e foi de facto um espectáculo fantástico e inesquecível. A experiência da Carmen indicia claramente que uma tão vasta oferta cultural se reflecte numa certa perda de qualidade. É difícil ter muito e muito bom.

O espólio de Arte Nova da cidade é formidável e mesmo alguém que não seja um fervoroso adepto do estilo, como eu, tem de ficar por ele marcado. Será impossível esquecer Alphons Mucha, o Hotel Pariz ou o Hotel Europa, verdadeiros ícones desta arte de imitação da Natureza. A cidade adquire uma mística especial graças ao rio Vlatva que é atravessado por várias pontes. O checo é um idioma terrível de ouvir e de ler. Consoantes consecutivas, com acentos de várias espécies mas que, apesar de tudo, começamos a conseguir ler (não entender, ler de uma forma meramente fonética, bem entendido) ao fim de algum tempo. Regra geral, nas zonas mais turísticas fala-se inglês e alemão suficientes para nos entendermos. Fora dessas zonas só mesmo em checo, por linguagem gestual ou através de bonecos num papel.

Fiquei com uma boa impressão dos checos que são, de um modo geral, prestáveis e simpáticos. Já em relação às checas muito mais há para dizer. Não sei muito bem como explicar a emoção que proporcionam. Não sendo lindas de uma forma avassaladora são, sem dúvida, muito bonitas sendo donas de uma beleza discreta e algo perturbadora. É difícil não ficar «preso» por várias mulheres que passam por nós ao longo do dia deixando um rasto de sedução que apetece seguir. Profundamente recomendável a todos os que procurem mulheres invulgarmente bonitas.

Foi Praga quem acolheu Mozart numa altura em que ninguém parecia querer recebê-lo. Por este motivo, Mozat ficou para sempre agradecido à cidade. Para isso também contribuiu muito o facto de as “Bodas de Fígaro” (com estreia em Praga em 1787) e de outras obras suas terem tido um sucesso colossal em Praga, havendo sido menos bem recebidas noutras cidades onde haviam sido apresentadas. Ainda hoje em dia a cidade recorda o compositor com um misto de carinho e de predador instinto comercial. Seja como for, a presença de Mozart é constante e em todos os locais onde ele esteve, tocou, dirigiu uma orquestra ou compôs uma obra, existe uma menção a esse facto. Foi aqui que compôs a Sinfonia 38 (Köchel 504) obviamente denominada “Sinfonia de Praga” (1786) bem como duas das suas óperas, ambas estreadas e dirigidas por ele no elegante Teatro dos Estados: “Don Giovanni” (1787) e “A Clemência de Tito” (1791), naquela que foi a sua última viagem a Praga. Estive na Villa Bertranka, propriedade de um mecenas que acolheu Mozart numa das suas estadias na cidade e onde está actualmente instalado um pequeníssimo Museu Mozart. Vale a pena a visita para sentir o ambiente que o rodeou e inspirou para a composição, sabe-se, da magnífica abertura do “Don Giovanni”. Enfim, abriu-me o apetite para visitar Viena e Salzburgo. Agora, impõem-se rever o “Amadeus” de Milos Forman, que foi integralmente filmado em Praga, para recordar uma cidade que já havia conquistado um lugar no imaginário da minha vida e que o consolidou fortemente depois de me receber de uma forma tão marcante.