Os mais longos 21.097 metros da minha vida
21.097 é o número histórico do passado domingo, 28 de Março de 2004. Foram estes os metros que percorri sem parar nenhuma vez, sem andar, sempre em passo de corrida. Nunca pensei que o conseguisse fazer. Nunca me imaginei sequer a tentá-lo. Lá cheguei à praça da portagem por volta da 9:30, passei pelos cães polícia que cheiravam uma mochila (enquanto deixavam passar quatro) na procura de bombas dado que esta prova ainda estava ensombrada pelos acontecimentos de 11 de Março em Madrid. Esperei uma hora pela partida para a minha primeira prova de atletismo de sempre. Estava algum frio, mas à medida que se juntava mais gente o vento tinha cada vez mais dificuldades em penetrar naquela imensa massa humana a ponto de nos conseguir causar frio. Claro que o nervoso miudinho antes da partida também ajudava.
Encontrei o Pedro Marinho que ia fazer a prova mais uma vez (é homem para correr a distância num tempo abaixo das duas horas!) com alguns amigos dele e lá esperámos animadamente durante uma hora pelo início da prova. Lá à frente, a cerca de 200 metros de nós, estavam os profissionais e os convidados. Sim, é verdade, todos os outros percorrem mais 200 metros do que a distância estipulada! Enfim... Com cerca de 10 minutos de atraso lá deram a partida e largámos ponte fora na busca do melhor tempo, de acabar ou de apenas ver as vistas.
No início da prova, no meio de tanta gente, preocupei-me mais em não atropelar nem ser atropelado, em concentrar-me na passada, na respiração, no ritmo certo para não estoirar demasiado cedo. Dizem que a vista da ponte é magnífica... deve ser, mas confesso que não tive tempo nem alma para a apreciar. Afinal de contas ou bem que corremos ou bem que desfrutamos da vista. A primeira parte da corrida nem teve grande história. Lá fui correndo até ao primeiro posto de abastecimento de água em Alcântara, do outro lado da rua do Jumbo. Depois, segui em direcção ao Terreiro do Paço.
Em frente ao edifício do IADE na Rua D. Carlos I, começa a chover forte e cruzo-me em sentido inverso com os primeiros classificados que já tinham ido para lá de Santa Apolónia e voltado!!! Que passada incrível! Que máquinas infernais de corrida!!! Depois, segui pela 24 de Julho fora até chegarmos ao Terreiro do Paço. Virei para a Rua do Ouro, Rossio, Rua da Prata, Terreiro do Paço novamente onde passei ao km 10 com um tempo de cerca de 1:03. Entretanto deixou de chover. Por esta altura, os quenianos já tinham acabado a prova com o vencedor, Rogers Rop, a fazer 59:49!!! Eu ainda nem a meio ia...
Lá segui pela Av. Infante D. Henrique fora em direcção ao local de viragem para depois fazer todo este percurso em sentido inverso até Belém. A meta estava instalada na Praça do Império em frente aos Jerónimos. Confesso que os últimos três km foram extremamente penosos. Tive de fazer um enorme esforço de concentração para terminar. A cerca de 1 km da meta consegui mesmo tropeçar no apoio de uma baia que delimitava o percurso. Felizmente não caí, mas o imenso barulho produzido serviu para me acordar do leve torpor em que estava e levou um companheiro de corrida a perguntar-me se eu estava bem e a puxar-me mais para o meio do percurso incentivando-me a terminar porque, afinal, já estávamos quase a chegar à tão ansiada meta.
Vejam bem a minha figura..., um verdadeiro athletus parvus
Por fim, acabei a prova. O meu tempo foi 2:20:07 (um pouco acima do que tinha definido como objectivo, 2 horas a 2 horas e 15 minutos). Apesar de tudo, nada mau para primeira vez. Recebi uma medalha e, sobretudo, ganhei uma batalha contra mim mesmo. Já não posso dizer que não consigo correr mais de 2 minutos sem ficar de rastos e sem fôlego. Quem diria...

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