A lição do estratega Marcelo Rebelo de Sousa
Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) é comentador residente da TIV há vários anos, tendo por sua conta 45 minutos semanais no programa Jornal Nacional desta televisão. Sinceramente, achava-o chato, loquaz e tagarela. Havia domingos em que a crónica era verdadeiramente maçadora.
No entanto, surgia recorrentemente um problema já sobejamente conhecido em MRS: a sua tendência para puxar os cordelinhos do mundo político português. E era precisamente este o aliciante das sua intervenções. Os espectadores da TVI queriam ver sangue! Francamente, já não havia paciência para as suas meias-palavras, entendres misteriosos e recadinhos pessoais. Era a versão portuguesa da teoria da conspiração só que inventada e desmascarada pelo mesmo manipulador: o alter ego de MRS, um hábil Mestre dos Fantoches.
Era assim que semanalmente destilava pequenas intrigas e ódios pessoais, numa invulgar mescla de livros da semana, ferroadas pessoais, citações da semana, destaques cinematográficos e intrigas políticas. Para compor o quadro, era sempre acolitado pelos inúteis pivots da TVI que pareciam aqueles cãezinhos que abanam a cabeça na parte de trás do carro, com a diferença apenas de não abanarem o rabo e de haver uma maquilhadora para, sempre que havia um intervalo no Jornal Nacional, lhes limpar o fio de baba que escorria incontrolavelmente do canto da boca, enquanto permaneciam em contemplação do Sr. Professor.
É de notar ainda que entre os diversos ódios de estimação de MRS, Pedro Santana Lopes (PSL) estava seguramente integrado no pelotão dos cinco da frente. Mais um motivo para MRS não conseguir resistir a arrear forte e feio neste Governo. Quase sempre enaltecendo o anterior governo de Durão Barroso. Quase sempre com razão, note-se. Aliás o difícil é encontrar coisas bem feitas por este Governo. O problema está na forma perturbadora como o faz, nos sorrisos que desvela ao dizer, entre dentes, o nome de PSL...
Assim, este triste (des)Governo que nos governa delegou, com a falta de siso que o caractereriza, no Ministro dos Assuntos Parlamentares Rui Gomes da Silva (é preciso um Ministro inteirinho para tratar dos assuntos parlamentares?) a tarefa de verbalizar o ultraje e exigir que a sociedade portuguesa abra os olhos para os abusos que o ignóbil e descontrolado MRS dirige contra o actual Governo.
Segundo a TSF, em declarações à agência Lusa, disse sentir-se «revoltado com as mentiras e falsidades» que são proferidas todos os domingos «por um comentador que tem um problema com o primeiro-ministro», PSL. No seu último comentário na TVI, no domingo, Marcelo Rebelo de Sousa criticou a tolerância de ponto concedida hoje pelo Governo, referindo que essa decisão «é pior do que o pior» do ex-primeiro-ministro António Guterres. O ministro dos Assuntos Parlamentares apontou ainda que, em 2002, a Alta Autoridade para a Comunicação Social emitiu pareceres críticos sobre os debates semanais de domingo na RTP, entre Pedro Santana Lopes e José Sócrates, alegando a não participação de outras forças políticas na discussão. «Agora, que não há qualquer contraditório (com Marcelo Rebelo de Sousa na TVI), estranho que a Alta Autoridade para a Comunicação Social esteja em silêncio», criticou Gomes da Silva.» Como se a TVI não fosse livre de ter quem e muito bem entende, o tempo que quiser, a discorrer sobre o que bem lhes der na real gana! Esta exigência do contraditório então é risível! Um espaço de opinião é isso mesmo: uma opinião de quem a formula, da exclusiva responsabilidade de quem a emite. Nunca seria viável ter, sempre que alguém emitisse uma opinião na televisão, um painel de contra-opinadores para assegurar o tal princípio do contraditório. As televisões não são tribunais.
Na altura, a quente, MRS disse apenas, com a fleuma que o caracteriza, que falaria sobre o assunto no domingo seguinte.
Mas não esperou tanto. Numa jogada de verdadeiro Mestre dos Fantoches, com uma simples declaração pôs todos a dizer o que nunca diriam de outra forma. E que fez MRS? Disse que, depois de uma reunião a pedido do administrador da TVI (note-se como não foi ELE que pediu a reunião...), decidiu dar por terminada a sua colaboração com a estação televisiva e, consequentemente, a sua análise política dominical. Não deu motivos, não disse absolutamente mais nada.
O génio desta reviravolta está no facto de ele ter conseguido subverter os papéis de todos os intervenientes da cena política nacional. De imediato se levantou um coro de protestos pelo facto de ele estar a ser censurado. Por exemplo, o PS, pela voz de António José Seguro, considerou que a maioria silenciou uma voz incómoda numa altura em que Portugal precisa de um «pacto de pluralismo democrático». Imaginem a ironia, o PS a defender MRS!
Já o Bloco de Esquerda disse que «Sabemos agora que um Governo que tem três meses, depois de dois anos e meio, entrou já na fase de um delírio de antropofagia em que a maioria se come a si própria e dá um sinal fundamental de que na ânsia do controlo da comunicação social está disposta até a atropelar o professor Marcelo Rebelo de Sousa». Esta descrição gráfica tão ao jeito da geração X que sustenta a blague do Bloco de Esquerda, foi transmitida pela voz de um preocupado Francisco Louçã. Isto é um país de fracos. Em Cuba, o problema seria resolvido de uma forma bem mais eficaz, não é, Camarada Louçã? Só falta o PCP vir defender que ele não deve ser silenciado!
É também interessante observar o atestado de menoridade que a oposição passa à TVI, acusando-a nas entrelinhas de ser manietada pelo Governo! A TVI é uma televisão privada que, ao contrário do que nos tentam fazer entender com apelos pungentes ao interesse dos espectadores, vive de e para o dinheiro dos investidores. Suspeito que a esta situação não será totalmente alheio o facto de a TVI deter agora os direitos de transmissão da Super Liga Portuguesa e de querer potenciar a abjecção Quinta da Celebridades.
Esta subversão dos papéis é deliciosa e revela bem o domínio que MRS tem sobre o fenómeno da política. Conseguiu pôr os seus arqui-inimigos a protestar por ele. Puro génio! Ao mesmo tempo, ridicularizou de uma forma sagaz o Governo de PSL, revelando quão absurda foi a sua atitude.
Lá diz o povo que vozes de burro não chegam ao céu e agora o governo de PSL bem pode ficar a fazer declarações titubeantes de protesto e apelos pungentes à Alta Autoridade para a Comunicação Social para o boneco!
Lá dos confins do século XV, estou certo de que Nicolau Maquiavel esboçou um largo sorriso. Touché Sr. Professor!

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