04/10/2004

A ponte dos flácidos II: homenagem ao Conselheiro Acácio



No dia da própria ponte, Luís Bento, presidente da Federação Mundial de Recursos Humanos e consultor do Banco Mundial para a Administração Pública, afirma que uma média de cinco a seis pontes por ano pode custar à economia portuguesa 1% do Produto Interno Bruto (PIB). Diz ainda que tolerância de ponto concedida esta segunda-feira pelo Governo é uma «medida populista». Justificou, dizendo que o Governo está a dar um rebuçado ao eleitorado depois do vinagre das últimas semanas.

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou ontem na sua análise semanal na TVI, que este Governo de PSL «já lhe faz lembrar o pior de António Guterres» «É um péssimo exemplo, quando o ministro das Finanças vem dizer que é preciso trabalhar mais e mais produtividade, quando o ano lectivo ainda não começou, antes de começar já há tolerância de ponto», afirmou. «Este Governo está a transformar o engenheiro Guterres num caso de sucesso, repetindo no pior o que ele fez e levando-o ao colo até Belém», acrescentou.

Quanto à tolerância de ponto nas escolas, o Executivo tinha tomado a decisão salomónica de colocar a decisão nas mãos das escolas e a FENPROF aconselhou os conselhos directivos a seguirem a posição do Governo, uma vez que considera que os estabelecimentos de ensino não têm competência para decidir nesta matéria. Esqueceram-se, naturalmente, da preocupação pungente, e quase caridosa, que demonstraram para com os alunos que, pobres coitados e infelizes, ainda andavam por aí ao Deus dará sem aulas, quando apenas pretendiam malhar forte e feio no Governo e na Ministra. Desta forma, podem ir gozar a ponte sem arreliadores problemas de consciência.

Bom, já todos conhecemos a história do conto tradicional português "O Rei vai nu".

Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava de andar muito bem arranjado. Um dia vieram ter com ele dois aldrabões que lhe falaram assim: - Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido - bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte. - Oh! Mas é uma descoberta espantosa! - respondeu o rei. Tragam já esse tecido e façam-me o fato; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço. Os dois aldrabões tiraram as medidas e, daí a umas semanas, apresentaram-se ao rei dizendo: - Aqui está o fato de Vossa Majestade. O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu: - Oh! Como é belo! Então os dois aldrabões fizeram de conta que estavam a vestir o fato, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas: - Ficais tão elegante! Todos vos invejarão! Como ninguém da corte queria passar por tolo, todos diziam que o fato era uma verdadeira maravilha. O rei até parecia um deus! A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um fato que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia o rei resolveu sair para se mostrar ao povo. Toda a gente admirava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou: - Olha, olha! O rei vai nu! Foi um espanto! Gargalhada geral. Só então o rei compreendeu que fora enganado; envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.

Ora, depois do comentários de Luís Bento e Marcelo Rebelo de Sousa, hoje, dia da tolerância de ponto, vêm a terreiro os sindicatos e associações patronais que, repentinamente, perceberam que o rei ia de facto nu!

«Confrontado com o alerta de que o impacto das «pontes» e feriados pode atingir um impacto de 1 por cento do PIB em Portugal, a UGT duvida que os custos sejam tão elevados. João Proença considera, porém, que a tolerância de ponto devia ser ponderada em devido tempo. «A questão das pontes em Portugal tem de ser vista com antecipação e tomando medidas que não prejudiquem a economia, mas também que não sejam contra as pessoas», afirmou. O líder da UGT alertou ainda para a questão de Portugal ter uma das cargas horárias de trabalho maiores da Europa e para o factor de um dia de descanso ser uma mais-valia de motivação para os trabalhadores. ». Claro... a devida antecipação é falar apenas porque outros falaram contra a tolerância de ponto. Caso contrário, o amigo João Proença, que lamentavelmente teve de interromper o tempo que havia destinado a gozar a sua tolerância de ponto para dar esta entrevista, ficaria calado como os demais palermas do conto tradicional.

Já a CGTP diz que «espera que este debate não sirva para colocar em causa, os direitos dos trabalhadores, embora Carvalho da Silva considere que a tolerância de ponto que se vive hoje não tem qualquer razão de ser. «Esta ponte em concreto, do nosso ponto de vista, pura e simplesmente não se justifica», considera Carvalho da Silva, mencionando o contexto e os desafios que se colocam actualmente em Portugal, como é o caso da abertura tardia do ano lectivo. «Pode haver situações em que se deve ponderar, mas não é o caso. Acima de tudo é preciso que não se utiliza esta questão para tentar eliminar feriados ou datas históricas que devem ser assinaladas no seu dia concreto», acrescentou o líder da CGTP.» Agradecemos que o camarada Carvalho da Silva nos explique que direitos dos trabalhadores são postos em causa por se trabalhar num dia útil como qualquer outro. Já quanto ao facto de esta tolerância de ponto não se justificar, ainda bem que o afirma depois de alguém já ter gritado em plenos pulmões que o rei ia nu! Ficaremos para sempre na dúvida se, na eventualidade de os maçadores economistas terem ficado calados, a CGTP jamais afirmaria que esta tolerância de ponto «simplesmente não se justifica», não é Camarada Silva?

Por fim, Francisco Van Zeller da Confederação das Indústrias Portuguesas (CIP), também se lembrou convenientemente, no próprio dia da ponte, que «É um mau hábito que dá a impressão que o trabalho é um sacrifício. Os países do Norte da Europa são mais severos e arranjaram a solução de encostar os feriados aos sábados ou aos domingos». Claro que o objectivo da CIP será sobretudo poupar o Governo amiguinho e, por isso mesmo, queixa-se mas baixinho e de forma suave.

Resta-me dizer que todas esta reacções foram extremamente comedidas e feitas para não levantar muitas ondas. Ao melhor estilo do Conselheiro Acácio!

O Conselheiro Acácio é uma personagem marcante de O Primo Basílio de Eça de Queirós. Tipifica o formalismo próprio da época, o falso moralismo, o apego às aparências. Amigo do pai de Jorge e padrinho do casamento, gosta de frases feitas e citações morais, mas, na vida privada, lê poemas obscenos de Bocage e mantém como amante a empregada, Adelaide, a qual, por sua vez, o trai com um caixeiro. É um dos tipos mais famosos da galeria queirosiana, e responsável pelos adjectivos "acaciano" e "conselheiral", usados quando se deseja aludir ao falso padrão moral de alguém.