Tour de France 2005 - Armstrong, campeão metódico e superdotado

(Artigo do Público sobre Lance Armstrong)
Treino intenso e científico potenciou vantagens genéticas
Lance Armstrong é o maior atleta de resistência da actualidade, segundo Edward F. Coyle, um fisiologista da Universidade do Texas que publicou recentemente um estudo sobre a evolução do heptacampeão do Tour desde os 21 anos até aos 28. Por detrás desta percepção estão boas potencialidades genéticas para o ciclismo e um programa de treino rigoroso e científico concebido por Chris Carmichael, treinador de estrelas como o nadador Michael Phelps, que o norte-americano segue religiosamente.
Num artigo publicado no site da Universidade do Texas, como introdução ao estudo científico, Coyle rejeita considerar Armstrong como uma “aberração genética”, tanto mais que “muitas das vantagens físicas são adquiridas através do treino e não simplesmente incluídas no ADN”. “Os genes e o treino físico interagem. Por exemplo, os genes que permitem aos músculos crescerem até ao seu potencial máximo podem ser activados através do levantamento de pesos. Os indivíduos que desenvolvem músculos muito grandes têm realmente uma vantagem genética à partida, mas também precisam de treinar muito para chegarem a esse ponto”, lembra o professor norte-americano.
Coyle explica que, para se ter sucesso no ciclismo, o atleta deverá ter “mais do que um gene que responde ao treino”, que várias partes do corpo, controladas por genes diferentes, sejam excepcionais, como o tamanho do coração, a sua capacidade de bombear sangue e a quantidade de vasos sanguíneos que transportam oxigénio até aos músculos. Armstrong tem tudo o que é necessário, principalmente um coração “grande e forte, que consegue bater mais de 200 vezes por minuto, bombeando grandes quantidades de sangue”, valor alcançado por apenas dois dos inúmeros ciclistas que o professor da Universidade do Texas estudou nos últimos 20 anos.
Treino científico
Contudo, isto não chega para se ganhar sete Voltas à França, pois os outros ciclistas “também não possuem sistemas cardiovasculares normais”. Como lembra Coyle, “todas as partes do corpo devem desenvolver-se entre 30 a 100 por cento ao longo dos anos intensos de treino”. Foi nesta base que Armstrong evoluiu nos sete anos em que foi estudado pelo cientista norte-americano, com novo ânimo desde que derrotou um cancro nos testículos, em fase avançada: melhorou em oito por cento a eficiência muscular (“Tendo em conta que apenas um a três por cento de diferença separa os vencedores dos lugares do meio da classificação, na maioria das finais olímpicas”, diz Coyle) e em 18 por cento a potência muscular por cada libra (454 gramas) de peso.
Armstrong prepara cada prova de forma metódica, científica e intensa. Ele e o seu treinador trabalham todos os pormenores, desde a intensidade das pedaladas em cada momento da prova, até aos movimentos das pernas que tornam mais eficaz cada pedalada. Treina entre cinco e seis horas por dia, trabalhando o sistema aeróbico, também com a ajuda de câmaras simuladores de altas altitudes, onde há menos oxigénio e obriga o corpo a tornar mais eficaz o seu transporte até aos músculos. Para além disso, pode haver mudanças consoante os adversários que são esperados em cada prova. “Por exemplo, quando Jan Ullrich não participou, passámos mais tempo a treinar as subidas às montanhas do que os contra-relógios", contou Carmichael ao site Trainingright.com, explicando que, no início da ligação com o campeão do Tour, começou por trabalhar as fibras musculares mais lentas e resistentes, essenciais para subir às montanhas ou vencer um “crono”, em detrimento da fibras rápidas e menos resistentes. Segundo o estudo de Coyle, a percentagem de fibras lentas no corpo de Armstrong passou de 60 para 80 por cento.
“Eu ouvi durante este tempo que sou demasiado metódico, robótico, mas no final do dia a minha responsabilidade não é com as pessoas que dizem isso”, afirmou Armstrong, nesta sexta-feira, em declarações à AP, destacando as diferenças entre o Tour actual e o passado romântico, em que “Eddy Merckx conduzia o seu carro até ao início das etapas ou Anquetil fumava cigarros”. O norte-americano considera que ele e Johan Bruyneel, ex-director da US Postal, agora ao comando da Discovery Channel, mudaram a forma como o Tour é preparado pelos outros ciclistas: “Pegámos numa prova de três semanas e transformámo-la numa de doze meses”.

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