
«No dia seguinte ninguém morreu», começa assim o novo romance de José Saramago. Finalmente José Saramago volta a escrever um livro de grande qualidade, que apresenta um humor fino e realmente inesperado. Dei comigo a sorrir sozinho, tipo tontinho, com inúmeras situações do livro. Depois do Ensaio Sobre a Cegueira (1995), foi uma longa e penosa travessia do deserto com obras menores, na minha opinião claro, como Todos os Nomes (1997), A Caverna (2000), O Homem Duplicado (2002), Ensaio Sobre a Lucidez (2004) e Don Giovanni ou o dissoluto absolvido (Teatro) (2005). Gostei muito do livro que começa devagar, com um arranque lento, mas que termina de uma forma genial. Neste livro, as subtilezas voam livremente e a música enche o ar

com uma densidade opaca e tridimensional. O tema da morte, tão incómodo na sociedade actual, é visto numa luz simples, humana mesmo. A morte (com m minúsculo) sente-se pouco poderosa, triste e, atrevo-me a dizê-lo, com falta de amor. O tema da paixão da morte é invulgar e estranho. Na companhia da fiel gadanha, a ceifeira eterna apresenta os dilemas típicos das personagens de Saramago. Numa metáfora alusiva ao poder da grande música, a morte ajoelha-se perante a partitura de uma das suites para violoncelo solo de Bach. Eu, que já me ajoelhei tantas vezes perante obras primas musicais, percebo o ímpeto incontornável sentido pela morte. Após tantos anos a matar-nos, será que a morte não se tornou um pouco humana? Saramago voltou finalmente a escrever uma obra de grande nível, que eu coloco directamente na galeria daquelas que são para mim as sua obras mais notáveis: Ensaio Sobre a Cegueira, Memorial do Convento, Jangada de Pedra ou O Ano da Morte de Ricardo Reis.
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