
Este livro integra-se na corrente do surrealismo e tem uma força e uma verosimilhança verdadeiramente preocupantes. Conta a história de Joseph K. (o apelido nunca é revelado ao longo do livro) que é acusado num determinado processo. Este processo move-se por meandros obscuros sem nunca ser revelado a Joseph K. aquilo de que o acusam, quem o acusa, nem mesmo qual é o andamento do processo. Num mundo verdadeiramente onírico, Joseph K. vagueia cada vez mais perdido sentindo-se julgado sem julgamento, acusado sem acusação, condenado sem sentença. A degradação que a pressão psicológica do processo desencadeia nele é notória e ficamos sem perceber se ele tem cada vez mais alucinações ou se a teia de uma sociedade perversa, asfixiante e impositiva o enreda cada vez mais a caminho da sua morte. Joseph K. sofre uma morte de cão, sem julgamento, sem condenação, na rua, às mãos de uns quaisquer algozes enviados por um eventual tribunal que nunca o quis ouvir e que o condenou sem apresentar nenhuma prova da sua culpa. Tendo em conta o estado da justiça em Portugal, não consegui deixar de estabelecer alguns paralelos com a triste situação nacional. Por exemplo, no que toca à falta de condições dos tribunais. No livro, há secções do tribunal espalhadas pela cidade e que alugam partes de casas particulares, para a realização de pseudo-sessões de julgamento ou que estão instaladas em forros de telhado abafados e sem condições nenhumas de trabalho. Soa a familiar?

Franz Kafka nasceu em Praga em 3 de Julho de 1883. Judeu, é oriundo da antiga província da Boémia do Império Austo-Húngaro. Kafka escreveu sempre em alemão. Formou-se em Direito em 1906 na Universidade de Karlov em Praga. Foi certamente graças a esta formação jurídica que conseguiu criticar de uma forma tão contundente o sistema judicial da época. Tal como muito outros intelectuais da época, como, por exemplo, Flaubert ou Beethoven, simpatizava com Napoleão. Embora seja corrente que Kafka sofreu de depressão clínica e ansiedade social ao longo da maior parte da sua vida, denotava uma saúde física verdadeiramente frágil já que sofreria de enxaquecas, insónias e prisão de ventre crónicas. Tentava combater tudo isto com duvidosos tratamentos naturopáticos como, por exemplo, uma dieta vegetariana ou o consumo de enormes quantidades de leite não pasteurizado, o que terá possivelmente contribuído para que tivesse contraído tuberculose.

Estava a viver em Berlim há pouco tempo quando a tuberculose piorou e teve de regressar a Praga, apenas para seguir apressadamente para um sanatório em Viena onde viria a morrer no dia 3 de Junho de 1924, aparentemente de inanição. A sua doença tornara-lhe impossível engolir e dado que os tratamentos intravenosos ainda não haviam sido desenvolvidos, não havia forma de o alimentar. Esta situação é muito semelhante à da personagem Gregor da «Metamorfose». Foi enterrado em Praga, no cemitério judeu, no dia 11 de Junho de 1924. A maior parte da sua obra foi publicada postumamente. Aliá, o Capítulo VIII de «O Processo» nunca chegou a ser concluído.
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