03/01/2006

Ficção: Conselho de Ministros do Governo Socialista (Onírico)

«Boa tarde meus senhores!»
(todos em coro)
«Boa tarde Sr. Primeiro Ministro!»
«Ora então qual é a agenda de trabalhos?»
Diz um Acessor Absurdamente Bem Pago «Bem, temos um problema muito grave com a Justiça, a Saúde vai de mal a pior, a Economia está a dar um trambolhão valente, dizem que somos mentirosos, o desemprego cavalga de forma desenfreada, os professores querem mais regalias e menos trabalho, os polícias querem equipamento decente para combater os criminosos e não conseguimos conter as despesas de estado.»
(pequeno burburinho na sala)

Pergunta o Primeiro Ministro «Sim... e não há nada mais importante para tratar?»
O Acessor Absurdamente Bem Pago consulta as suas notas «Há... é preciso nomear um conjunto de camaradas para cargos importantes, temos de arranjar uma colocação sonante para o camarada Pedroso e decidir como nos vemos livres do camarada poeta Alegre...»
«Ah, isso sim, é importante! O resto que se lixe» exclama o Primeiro Ministro entusiasmado, incendiando a reunião com fervor ao recorrer a esta linguagem mais vernácula com o intuito esperto de se tornar mais próximo dos restantes ministros. «Então quem temos para colocar?»
O Acessor Absurdamente Bem Pago começa a desfiar o rol de camaradas em lista de espera por ordem de prioridade, anos de camaradagem, favores prestados ao partido, familiares directos e indirectos de camaradas a colocar em cargos menores, porém bem pagos, etc. Após duas horas de acesa discussão e depois de decidida a colocação de mais de uma centena de camaradas, os quatro funcionários da Imprensa Nacional Casa da Moeda que assistiam ao Conselho de Ministros trataram logo da papelada necessária e três horas depois os despachos já haviam sido assinados e publicados. Não é de estranhar. Havia sido uma sábia decisão que este Governo tinha implementado, já que a presença próxima do Conselho de Ministros destes funcionários da INCM aligeirava, e muito, o processo da publicação das colocações dos camaradas. Ainda restavam dez minutos de Conselho de Ministros e o Primeiro Ministro, após 7 minutos em que se falou um pouco de futebol, voltou a pedir a Agenda de Trabalhos ao Acessor Absurdamente Bem Pago. Ele lá voltou a desfiar o rol «Bem, temos um problema muito grave com a Justiça, a Saúde vai de mal a pior, a Economia está a dar um trambolhão valente, dizem que somos mentirosos, o desemprego cavalga de forma desenfreada, os professores querem mais regalias e menos trabalho, os polícias querem equipamento decente para combater os criminosos, e não conseguimos conter as despesas de estado. No entanto, Senhor Primeiro Ministro, penso que já não temos tempo para estes pontos da agenda.»

O Primeiro Ministro, apreciando a fina inteligência denotada pelo Acessor Absurdamente Bem Pago, concordou. «Camaradas, adiamos a discussão destes itens da agenda para a semana que vem.» O Acessor Absurdamente Bem Pago, recordou ao Primeiro Ministro que para a semana havia um feriado na sexta-feira e que o Governo ia dar tolerância de ponto ao funcionários públicos na quinta-feira e que por esse motivo não haveria Conselho de Ministros nessa semana. «Óptimo!», exclamou o Primeiro Ministro «Nesse caso, continuamos na semana seguinte.» O Acessor Absurdamente Bem Pago observou que na semana seguinte também não poderia ser já que o camarada Mário Soares, que estava em pré-campanha para as Presidenciais, tinha convidado o Governo para ir na sua comitiva de 371 individualidades ao Brasil, nas sua palavras «para recordar bons velhos tempos!». O Primeiro Ministro pensava por esta altura que era fundamental aumentar este Acessor Absurdamente Bem Pago. Seis mil e quinhentos euros por mês, a recibo verde vezes catorze meses, estava bem abaixo do que ele merecia!

À saída, lá estavam os jornalistas para a habitual conferência de imprensa. O ministro adjunto informou que durante o Conselho de Ministros se discutiu sobretudo o aflitivo problema do desemprego em Portugal. Além disso falou-se também das questões das Presidenciais e que se tinham tomado «resoluções preliminares» (o que quer que isso queira dizer...) «para resolver o gravíssimo problema da Justiça, para melhorar a Saúde, havia sido analisado com preocupação o problema da Economia, a efectiva implementação das medidas que constavam do Programa do Governo, que a matéria da situação dos professores poderia ter desenvolvimentos positivos a curto prazo, que as forças da ordem seria eventualmente reforçadas para o combate ao crime e que o problema das despesas do Estado tinha sido objecto de estudo aturado».