A água de figo

Certo dia, no laboratório de testes da fábrica Frize, reuniram-se os técnicos do departamento de química nutricional, como sempre faziam, para decidirem sobre que novo sabor disponibilizar na gama de águas Frize. Nessa reunião, seria seleccionada a água com melhores possibilidades de singrar no mercado.
Durante essa semana, os técnicos tinham tido mais em que pensar do que nos sabores das águas já que estávamos em pleno Euro 2004 e Portugal estava a ter um óptimo desempenho. Foi por esse motivo que, à última da hora, tiveram de desenvolver rapidamente os sabores para a prova de selecção dessa semana. Com pouca imaginação, o único sabor que tinham desenvolvido segundo os planos de estudo tinha sido o de figo. «Até calhava bem», pensaram, «sempre era o nosso jogador mais emblemático!»
Faltavam os restantes cinco sabores para compor o lote de seis sabores que tinham de ter disponível para a selecção. Na quarta-feira continuavam a ter apenas o sabor de figo e o tempo começava a fugir velozmente em direcção ao prazo. Pensaram nos sabores de melancia, mas o ano até tinha sido mau para melancia, baunilha, era demasiado intenso, pêra, era quimicamente instável, alcachofra, só se venderia no Algarve, banana, enjoativo.
Finalmente, o engenheiro químico António Carlos Valadares, Tóca para os amigos, teve uma ideia brilhante e que poderia salvar a equipa nessa tormentosa reunião com a direcção comercial. «E se fizéssemos uns sabores absolutamente nauseabundos para lhes direccionar a escolha para o sabor de figo que já temos prontinho?». Houve um silêncio pesado na reunião... A maior parte dos participantes, tinha passado uma larga parte da noite aos pulos sobre uma vestal seminua que ladeava a base da estátua do Marquês de Pombal gritando «E quem não salta, não é da malta», ao mesmo tempo que lhe apreciava os mamilos de rocha sedutoramente espetados. Era por este motivo que quase todos conseguiam ouvir o seu próprio sangue a circular nas artérias a cada bombada do coração. Dada a condição física da rapaziada, naquela reunião, o silêncio representava um ruído ensurdecedor. Foi por isso que o tresloucado plano do Tóca foi aceite e posto em marcha.

Para além do sabor a figo, foram propostos mais os seguintes cinco sabores: sardinha, pepino, mão de vaca com grão, caracóis e alho. Numa antecipação segura, o Tóca anunciou, ao melhor jeito dos Óscares, num sotaque de arrepiar, «Ande the weiner iz...fáigo». O grupo emocionou-se ao recordar o jogo genial de Figo contra a Holanda, permanecendo durante alguns segundos absortos, de os olhos no chão. Não havia como fugir-lhe, era a catarse futebolística do país.
Sexta-feira, 11:00, reunião de produção. Sobre uma mesa estão seis garrafas com o familiar formato das garrafas Frize. Todas tinham uma etiqueta branca por cima do nome do sabor nelas contido. A ideia era que os executivos provassem e reconhecessem o sabor. Era um procedimento já habitual e nem eram necessárias grandes explicações. A equipa de químicos assistia à prova numa sala por trás de um espelho, tipo esquadra da polícia, a partir de onde podiam aquilatar das reacções dos executivos.
A primeira garrafa disponível era com sabor a figo. Tinha sido ideia do Tóca e o objectivo era, segundo ele, seguir a regra de ouro da organização mental humana que diz que nos lembramos sempre melhor do início e do fim de qualquer sequência, do que do meio. Portanto, quebrava-se o gelo logo com o sabor vencedor, relegando para as calendas gregas todas as hipóteses dos restantes sabores.
A expressão de desagrado com o primeiro sabor, figo, era inequívoca. No entanto, o nojo e a repulsa do sabor seguinte, sardinha, revelavam bem como a trama havia sido bem urdida. Seguiam-se os odiosos pepino, mão de vaca com grão, caracóis e alho. Os executivos estavam boquiabertos com a aparente alienação da equipa de químicos. «Há aqui sabores que nem consigo identificar correctamente», dizia um. «Houve aqui um sabor que, de repente, me transportou para os almoços em casa da minha mãe... ela adorava mão de vaca e carregava sempre tanto no alho», «Parece que estou numa sardinhada, isto tem potencial» dizia um dos executivos que era um vegetariano inveterado e que delirava com a ideia de poder saborear carne sem ter de realmente comê-la. Na sala dos químicos, surgiam pequenas gotículas de suor nas testas dos membros da equipa. Nunca, até hoje, haviam saído de uma prova destas sem uma escolha para um novo sabor a produzir. Estava em jogo a honra da equipa!
Foi então que o chefe da equipa de produção proferiu o seu veredicto. «Confesso que de todas, gostei mais da primeira. Apesar de me saber a figo, que eu acho odioso, pareceu-me ser a melhor...». Ao dizer o nome do capitão da selecção de todos nós, todos baixaram imediatamente a cabeça, fechando os olhos por brevíssimos décimos de segundo. O país venerava o grande jogador e a ideia de ter uma água com o seu nome pareceu, de repente, uma excelente jogada comercial. Pena era que todos os restantes membros da comissão concordassem que a água era perfeitamente repulsiva, apesar de ser, inquestionavelmente, a melhor do lote. Entre a equipa de químicos, a alegria era clara. O plano tinha resultado em pleno. Afinal, tal como o Tonhão, primo de Tóca, havia vaticinado, «Os executivos da fábrica são tão estúpidos que hão-de escolher o sabor a figo que é que nem ginjas!»
E foi assim que foi tomada a infeliz decisão de vender uma água Frize com o abjecto sabor a figo, como diria o Pedro Tochas no anúncio, e para que não houvesse confusões, «o fruto»...

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