O Inferno no Paraíso
Gráfico sismológico do tremor de terra de Samatra
No dia 26 de Dezembro, o Sudeste Asiático foi abalado por um terramoto com epicentro ao largo da ilha de Samatra, na Indonésia, com 8,9 graus na escala aberta de Richter que é de 9 graus. Na prática, esta escala é graduada de 1 a 9 mas teoricamente é ilimitada, fala-se assim de uma escala aberta.
1. Sentido apenas por instrumentos científicos.
2. Sentido por algumas pessoas e animais.
3. Sentido por muitas pessoas.
4. Sentido por todas as pessoas.
5. Destrói algumas construções
6. Estruturas balançam e paredes começam a cair.
7. Destrói muitas construções e mata pessoas.
8. Um desastre.
9. Destruição total.
O sismo mais forte jamais registado atingiu 9,5 e ocorreu no dia 22 de maio de 1960 no Chile. Acredita-se que o sismo de 1 de Novembro de 1755 em Lisboa possa ter atingido também esta intensidade.
O terramoto propriamente dito causou uma enorme destruição na ilha de Samatra. O problema é que o terramoto também originou enormes maremotos que se deslocaram em diversas direcções por todo o Golfo de Bengala.
Aspecto de um dos hotéis da zona, implantados sobre o mar
Estes maremotos, ou Tsunamis do japonês "津波" que significa "Onda no porto", atingiram 7 países provocando uma destruição que ainda está por calcular. Os Tsunamis, ao contrário das habituais ondas provocadas pelo vento que podemos observar em qualquer zona costeira, são caracterizados por ondas com o comportamento de águas pouco profundas, sendo a sua profundidade inferior a cerca de 1/20 do comprimento da onda. As ondas geradas pelo vento ou por uma normal tempestade, atingem a costa de forma ritmada com uma cadência de uma onda a cada 10 segundos e um comprimento da onda de cerca de 150 metros. Um Tsunami, pode apresentar um comprimento da onda superior a 100 km e uma cadência de cerca de uma onda por hora.
O paraíso sobre as águas cristalinas do Índico
É devido ao seu enorme comprimento da onda que os Tsunamis se comportam como ondas de águas de pouca profundidade. Uma onda transforma-se numa onda de pouca profundidade à medida que a relação entre a sua altura e comprimento se reduz. As ondas de pouca profundidade deslocam-se a uma velocidade igual à raiz quadrada do produto entre a aceleração da gravidade (9,8 m/s²) e a profundidade da água. Resultado? No Oceano Pacífico, que apresenta uma profundidade de cerca de 4.000 m, um Tsunami viaja a cerca de 200 m/s ou seja a mais de 700 km/hr. Uma vez que a taxa à qual a onda perde energia é inversamente proporcional ao seu comprimento de onda, os Tsunamis não só se deslocam a elevadas velocidades, como também podem percorrer enormes distâncias transoceânicas com reduzidas perdas de energia.
Fabuloso!
Agora vem a parte pior... o fluxo de energia de um Tsunami, que está dependente da velocidade da onda e da sua altura, permanece quase sempre constante. É por este motivo que à medida que a velocidade do Tsunami diminui por se aproximar de terra e a inclinação do leito oceânico assim o forçar, a sua altura cresce. Assim, o efeito de onda, quase imperceptível em alto mar, cresce vários metros à medida que se aproxima da costa. Quando finalmente atinge a linha costeira, o Tsunami apresenta-se como um subir ou descer repentino da maré e pode apresentar poderosíssimas ondas ou mesmo enormes vagas com mais de 10 metros de altura. A sua força destruidora é devastadora e praticamente silenciosa.
Pelas imagens apresentadas na televisão, a comparação possível é como se a maré de repente começasse a encher e entrasse por terra dentro com uma força que apenas milhões de toneladas de água podem ter. Houve zonas em que a maré penetrou um quilómetro para dentro de terra destruindo tudo à sua passagem!
Foram mais de dez os países atingidos por este cataclismo e incluem a Indonésia, Tailândia, Sri Lanka, Índia, Malásia, Maldivas. O maremoto ainda atingiu a costa Leste de África a 6.000 km de distância atingindo a Somália, a Tanzânia e o Quénia.
A enorme massa de água quando atingia a zona
Neste momento os números provisórios são aterradores: 125.000 mortos e os números não param de subir assustadoramente; mais de cinco milhões de desalojados, um milhão só no Sri Lanka. Os riscos de epidemias poderão provocar um outro tanto de mortos. [Nota de 20/1/2005: Os números nunca pararam de subir ao longo das três semanas que entretanto passaram. No entanto, apenas hoje a Indonésia fez uma revisão dos seus números e o saldo de mortos disparou para 220.000, com as agências internacionais a indicar 226.000.]
Numa visão absolutamente macabra, as praias paradisíacas desta região do globo estão a ficar pejadas de milhares de cadáveres que só agora começam a dar à costa. Não há sacos suficientes para os cobrir nem caixões para os enterrar. Na Índia, procede-se a centenas de enterros em valas comuns e no Sri Lanka e na Indonésia tenta gerir-se a crise de ter centenas de feridos e milhares de cadáveres inchados e em decomposição.
"Cheira tão mal... há cadáveres humanos misturados com animais mortos como cães, peixes, gatos e cabras" disse o Coronel Buyung Lelana, responsável pela equipa de evacuação da província indonésia de Aceh, na ilha de Samatra.
Naturalmente que se assiste ao êxodo dos milhares de turistas sobreviventes que ficaram literalmente apenas com a roupa que tinham no corpo, na sua maioria com o fato de banho, já que os hotéis onde estavam os seus pertences foram integralmente arrasados pelo maremoto. Basta olhar para as imagens destes hotéis paradisíacos à beira mar plantados para imaginar a destruição.
Neste momento assiste-se a um esforço das diversas embaixadas em obter os documentos necessários para que os seus cidadãos regressem a casa e comecem, lentamente, a esquecer o Inferno que viveram no Paraíso.

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